Carta aberta à McDonald’s

Porto, 28 de Junho de 2005
 
Exmo. Sr. Director-geral da McDonald’s
 
O sucesso global de uma empresa como a McDonald’s deve-se, em parte, à sua
estratégia de integração dos hábitos e culturas locais onde a McDonald’s se
expande.
 
Como cliente regular da vossa cadeia, e como português consciente das
especificidades culturais de Portugal, venho oferecer-lhes a minha humilde
contribuição para uma continuada naturalização da vossa empresa.
 
Começaria logo com o nome. Os portugueses não têm nada a objectar contra o
nome anglicano «McDonald’s». Aliás, nós gostamos tanto do apóstrofo que até o
colocamos em nomes de estabelecimentos portugueses. Só que casa de pasto que se
preze deve ter uma denominação mais extensa. Sugiro «Café Restaurante Snack-Bar
McDonald’s», pois é assim que os nativos denominam os seus estabelecimentos,
mesmo que não sirvam snacks nem tenham bar.
 
E já que estamos a falar em nomes, porque mantêm os nomes das sandes em
inglês? Há necessidade de obrigar a população portuguesa a pronunciar
chicken para pedir um panado de galinha, ou fish para pedir o
que é, e isto deveria ser explicitado para vosso benefício neste país, um filete
de bacalhau fresco? Não só os nomes deveriam estar em português, como a alargar
o leque de ofertas adaptadas à gastronomia nacional, também adaptados às várias
regiões. Senão vejamos: uma sandes de bife frito em Lisboa é um «prego». Mas no
Porto o mesmo é um «prego no pão», porque um «prego» nesta cidade é o mesmo
pedaço de bife do vazio frito mas servido no prato, o que em Lisboa se chama um
«bitoque». Confusos? É por isso que estou aqui.
 
Isto leva-me agora para o vosso slogan. «I’m lovin’ it». Com o apóstrofo
fonético a omitir o «g», como se nós nos interessássemos por isso. Assim, em
inglês sem se darem ao trabalho de nos traduzir a frase, como se fosse tão
poética que não tivesse tradução. Fiquem então a saber que T. S. Elliot
encontra-se traduzido a nossa língua. E para juntar insulto à injúria, como
dizem os americanos, os copos das bebidas incluem o slogan actual traduzido e
adaptado em várias línguas do mundo. Se não se estão para se incomodar para
traduzir uma frase e os nomes das sandes para nós portugueses, devemos nós
incomodarmo-nos acartando um dicionário de cada vez que optemos por uma refeição
no vosso estabelecimento?
 
Depois temos a questão da vossa ementa. A maior parte das vossas sandes são
de vaca. Considerem, por favor, colocar outras carnes dentro do pão, com os
seguintes resultados:
McBorrego;
McLeitão.
O consumidor português está habituado à riqueza dos vários tipos de
pão que a sua gastronomia oferece, pelo que se proporcionaria oferecer,
também:
McPão com Chouriço;
McSardinha na Broa.
Como as vossas pesquisas poderão concluir, a gordura da sardinha é uma
gordura boa, saudável. E a broa de milho dá-nos força para trabalhar. E para
alargar o leque de comidas saudáveis, porque não:
McPapas de Sarrabulho Plus;
E a sopa McCaldo Verde.
Para ajudar a empurrar tudo isto abaixo, porque não umas bebidas de
produção nacional?
McVinho (Branco ou Tinto, Verde ou Maduro).
E para as crianças:
McVinho Doce (servido num copo infantil).
E por falar em crianças. O menu Happy Meal merece, além de um nome mais
local, como «Menu Ri-te ri-te e depois diz que choras», mais escolha para os
catraios, como uma Sopas de Pão Ressesso no Vinho.
 
Aprecio o facto de terem incluído o Pastel de Belém na vossa oferta. É
sinal que estas minhas sugestões não são assim tão desfasadas da vossa
estratégia. Mas porque não ir mais além e juntar também:
McAletria;
McTravesseiros;
McDoce do Convento de
Évora.
Os brindes do actualmente denominado de Happy Meal também não se relacionam
com as referências culturais das nossas crianças. Nesse aspecto estou disponível
a colaborar com o departamento de Marketing da vossa empresa para a criação de
conceitos para brindes como:

Crucifixo com o palhaço Ronald™ espetado (numa bonita metáfora contra os
detractores da vossa cadeia);
Colete reflector homologado (disponível em
amarelo e laranja, para coleccionar);
Boneco Manuela Moura Guedes inflamável,
com isqueiro (usar sob supervisão parental);
Uma nassa para ir aos
melros;
Fisgas feitas com elástico das cuecas.

E porque não, para alargar a faixa etária da vossa clientela, uma Ementa (não
é «Menu», isso é francês) Sénior? Imagino os brindes:

Corta-unhas com canivete;
Chicatas de dedo;
Patela de ferro para jogar
à malha.
Agradeço o tempo dedicado a avaliar as minhas sugestões, certo de
que contribuirão simultaneamente para o respeito pela cultura local e para o
inexorável sucesso da vossa empresa, e subscrevo-me colocando-me cordialmente ao
vosso dispor.
 
_________________________________
              (Ricardo da Costa Pinho)

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