Let’s look at the trailer

Antes de começar a ler este artigo, convido-vos clicar na seguinte imagem para ver a respectiva trailer que é, na verdade, uma paródia às próprias trailers antes de um anúncio a um documentário sobre Seinfeld.

A personagem que vemos no estúdio de som é de Hal Douglas, imitando o estilo de apresentação criado praticamente por Don LaFontaine.

Eu próprio ia escrever um artigo sobre trailers, mas depois vi que muito já foi dito no artigo To Cut A Long Story Short do The Guardian. Foi aí que fiquei a saber que Don LaFontaine já narrou mais de quatro mil anúncios cinematográficos, e que ele próprio é o autor dos textos «num mundo… um homem…». Nesse artigo também se explica a origem do nome «trailer», já que aquele tipo de publicidade era, na verdade, pedaços de película do filme atrelados no final da bobina do filme principal. Entretanto, fico a pensar numa palavra portuguesa para «trailer», que em francês se diz «bande annonce», para meter na minha lista de palavras intraduzíveis.

E também está naquele artigo um comentário àquele efeito sonoro da agulha do gira-discos a ser retirada do disco de vinil, usado nos momentos em que os anúncios cinematográficos de comédias saem do tom sério. Sobre esse efeito tenho uma palavra a dizer: parem.

Clichés à parte, porque é que será que as trailers portuguesas são tão más e não convencem ninguém para as salas que os exibem?

No artigo Coming Soon do diário The Artful Writer, podemos encontrar algumas pistas. A promoção de um filme começa com um título. É o primeiro contacto que a audiência tem com um filme. Idealmente, passará uma ideia do tema ou da história. Menos idealmente, como tem sido o caso de alguns filmes portugueses, é apenas o nome próprio do protagonista. Aquele artigo contém também dicas para escrever ou identificar os «momentos trailer».

O que noto nos anúncios cinematográficos melhor sucedidos é que transmitem economicamente várias respostas que audiência quer saber para a eleição do seu próximo bilhete de cinema.

Na minha opinião, um anúncio cinematográfico eficaz mostra as personagens no seu contexto inicial, o objectivo a que se propõem realizar e os seus obstáculos, revela o género do filme e o seu estilo plástico.

Por outro lado, o que vejo nas trailers portuguesas é uma mera colagem desconexa de frases de personagens, descabidas do seu contexto. Normalmente diálogos esses seleccionados pelos seus palavrões. Será que os promotores julgam os palavrões ser o que baste para fazer parecer o filme, sei lá, mais urbano?

Há trailers que só com a sua fina montagem de cenas e excertos de diálogo do filme conseguem revelar, e apenas com o tema musical continuamente sob todo o anúncio, a premissa da história e o tom do filme.

Mas o mais usual é haver uma narração, que apresenta e explica um pouco do filme.

O Don LaFontaine português é o João David Nunes. Durante muitos anos foi ele quem narrou os anúncios cinematográficos distribuídos pela Lusomundo e ainda hoje em dia, quando se pretende que um anúncio tenha o formato ou efeito de um anúncio cinematográfico, os publicitários vão buscar o João David Nunes (agradeço ao Luís Gaspar a informação). Da última vez que o ouvi, era para um anúncio do Twix na televisão. Mas a frase «Sexta-feira estreia nacional» dita por ele nos trailers para televisão, dita por ele, está no imaginário de muitos de nós. Os produtores deveriam pensar em dar a voz do João David Nunes às nossas trailers.

Agora os filmes estreiam às quintas-feiras (para as receitas globais do primeiro fim-de-semana poderem ser maiores) e as crianças mais pequeninas ouvem agora a voz do Paulo Coelho na narração dos anúncios aos filmes da Disney (obrigado aos Estúdios Valentim de Carvalho pela informação).

Depois há também os pequeninos pormenores. A audiência está habituada a ver um logótipo da produtora no início do anúncio cinematográfico (e do filme), muitas vezes alterado na sua apresentação de acordo com o género do filme. Os filmes portugueses precisam de ser identificados com as respectivas produtoras, que estão mesmo a precisar de arranjar imagens animadas para se identificarem visualmente nos próprios filmes. E no final do anúncio, um título cuidadosamente desenhado, seguido de um ecrã com a ficha técnica. São estes marcadores visuais que dão à audiência a sensação de trailer num formato que conhecem e, por conseguinte, de confiança.

Trailers. Contam as melhores piadas dos filmes e estragam as surpresas das histórias, mas quem lhes consegue resistir? São parte da ida ao cinema. Não só servem para ajudar a seleccionar os filmes seguintes, como são aquele período de tempo em que nos ajustamos da realidade de lá fora da sala à realidade dos filmes, enquanto a longa-metragem que pagamos para ver não começa. Às vezes, fazem-nos arrepender do género que escolhemos para ver o filme, como quando vemos uma trailer cómica extravagante antes de um filme de terror independente de um país obscuro. Outras vezes, substituem todo um filme tão previsível que até antecipamos o que vai acontecer no próprio anúncio cinematográfico. E quando são mesmo boas, deixam-nos ansiosos por um filme cuja data de estreia parece nunca mais chegar. Trailers. São um entretenimento em si mesmo. São curtas-metragens. São espreitadelas. São amostras de sentimentos.

E para quem não lhes chegue as três ou quatro anúncios que viram na sala de cinema, podem encontrar na página de trailers da Apple dezenas e dezenas delas, para satisfazer o vício… até à quinta-feira seguinte.

Nos EUA os melhores exemplos de publicidade a cinema, de cartazes e anúncios cinematográficos, são premiados no festival Key Art Awards.

E já agora, antes de terminar: numa entrevista ao Correio da Manhã, Lauro António afirmou nunca ter dito a frase «Let’s look at the trailer».

3 thoughts on “Let’s look at the trailer

  1. Olá, será que me podes dizer como é que consigo chegar à fala com o João David Nunes. Obrigado pela dica.
    Parabéns por este teu blog.

  2. Gostei muito, mas gostaria de saber se vocês poderia me indicar livros, revistas, jornais, o que for, que fale mais sobre o assunto trailer???
    Obrigado!

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