Alto Comissariado para a Protecção dos Recém-Encartados e Originalidade nas Metáforas

Se eu fosse primeiro-ministro criaria, logo na própria semana em que tomasse posse do mandato, o Alto Comissariado para a Protecção dos Recém-Encartados e Originalidade nas Metáforas (ACPREOM).

Pretende-se com esta medida travar os abusos humorísticos a que os jovens cidadãos que acabam de tirar a carta de condução estão sujeitos, com piadas de grau zero na sua comicidade e de banalidade superior aos índices tidos como toleráveis pela Organização Mundial de Saúde, tais como:

«Epá, quando saíres de carro tens de me dizer para onde vais que é para eu não estar nessa parte da cidade nessa hora.»

«Então passaste? Quantos chouriços é que tiveste de dar ao engenheiro?»

«Com que então mais um perigo na estrada. Ahahahah.»

De facto, ao avaliar os dados da Amnistia Internacional quanto à observação dos direitos humanos dos recém-encartados dentre os membros União Europeia, podemos verificar que Portugal se encontra no último lugar da tabela, atrás da Grécia.

Vítimas de piadas banais e sem graça sobre recém-encartados
Lugar País Homens Mulheres
21º Espanha 11,3% 11,8%
22º Itália 12,1% 14%
23º Estónia 15,7% 15,9%
24º Grécia 18,2% 19,6%
25º Portugal 100% 100%

Além do Observatório da Piada Rodoviária Previsível, o Alto Comissariado compor-se-á de um grupo de trabalho autónomo composto por sociólogos, psicólogos, filósofos e mecânicos de automóveis que terá os pais dos recém-encartados como seu objecto de estudo. Isto no sentido de avaliar o impacto que tem a intenção de dar aos seus filhos um carro em segunda-mão «para eles treinarem, antes de lhes dar um carro novo», às vezes de fiabilidade duvidosa, construindo a ideia de que ao volante daquelas viaturas podem ser descuidados na sua condução dado que os prejuízos dos acidentes serão sempre e apenas de natureza material.

Da estrutura do ACPREOM fará parte também o Grupo de Trabalho para Inovação nas Metáforas. Pretende-se ver se se consegue arranjar qualquer coisinha mais que não sempre as mesmas palavras para depreciar os carros, com «chaleira» para designar um carro antigo, e «banheira» um carro grande, no topo da lista das metáforas mais gastas.

Um estudo encomendado por mim e que por agora só eu tenho acesso demonstra categoricamente que estas medidas trarão um decréscimo de pelo menos 36% (nota-se mesmo que eu adoro inventar percentagens, não se nota?) na sinistralidade causada pela raiva acumulada daquelas graçolas, e um aumento de (e cá vai outra) 11% da longevidade das amizades.

3 thoughts on “Alto Comissariado para a Protecção dos Recém-Encartados e Originalidade nas Metáforas

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