Passe de época

Há uns meses fui tirar fotografias daquelas que se tem dizer que são do «tipo passe», e não «fotografias passe», para não passar por uma pessoa do tipo ignorante perante quem diz da mesma maneira.

As fotografias passe são sempre um terror porque nunca há maneira de ficar bem retratado. Mas a culpa não é nossa, é dos fotógrafos. A sério, é. Mandam-nos pôr a mão direita em cima da perna, mais acima, isso aí. Depois rodar para a esquerda. Não a cabeça, o tronco. Isso. Agora tenho de baixar o queixo. Não, não tanto. Cotovelo para dentro, sem apertar. Relaxe os ombros. Flicta a perna, deixe estar a mão em cima da perna. Como estava. Olhe para cima, em frente, para ali.

Como se fôssemos incompetentes na cinestesia, lá vêm eles na sua autoridade cravarem-nos os dedos nas têmporas para nos rodar o crânio para o ângulo mais desconfortável possível e que melhor nos distorça perante a objectiva da câmara fotográfica.

Mas dizia eu. Há uns meses precisei eu de mais uma fornada de fotografias, e na minha aventura pelo fotógrafo competente, entrei numa loja que prometia fotografias retocadas e com brinde. Foi na Foto Cadiz, na Rua de Santa Catarina no Porto.

Subi umas escadas que serviam de portal para o passado e fui atendido por um casal de velhinhos. Era para tirar umas fotos passe, disse. Deu-me a escolher entre fotografias na chapa ou digitais. Na chapa demora mais mas fica melhor – explica o senhor que julgo ser o senhor Cadiz – é que tem retoque. Mas, acrescenta, em digital também ficam bem. Que não é por serem tiradas em digital que ele tem menos cuidado com a iluminação. Mas por outro lado na chapa as borbulhas e outras pequenas imperfeições são pintadas.

E como foi difícil resistir àquele velhinho que falava do «digital» como se existisse desde 1935, escolhi as duas hipóteses. É para tirar umas digitais para levar agora, e umas na chapa para meter no passaporte depois. Só que essas vão levar duas semanas porque estou a fazer quimioterapia, avisa-me. Não faz mal, não tenho pressa, respondo. Muito bem, queira passar para o toilette, diz-me agora a senhora, para se arranjar.

O toilette. O toilette era mais que uma divisão feita dumas finas tábuas levantadas numa parede do estúdio com um lavatório e um espelho baço. Era marca duma era do francês como língua franca. E também um toilette onde deixar o casaco.

Vamos lá então tirar as fotografias. Em vez de me pedir para deslocar um tendão do pescoço, o senhor Cadiz desenhou a luz com os seus projectores da República Democrática Alemã, cujos difusores pareciam de papel vegetal. Não uma, mas duas vezes. Para a fotografia na chapa, reconfigurou a disposição dos projectores – vamos fazer uma coisa totalmente diferente, já que leva dois conjuntos de fotografias. Uau. Agora, detrás duma câmara fotográfica do tamanho duma televisão, diz-me para olhar para um sítio qualquer, para me distrair. Agora pede-me para voltar a olhar para a mão dele, e assim que eu olho – dispara. Ahhh… quase. Muda de chapa. Repete as instruções. Dispara. Iáaaa!. Sim, ele grita, dá uma cotovelada para trás com o punho fechado e uma joelhada no ar cheia de energia. Iáaaa!. Naqueles segundos, o senhor Cadiz ficou mais novo cinquenta anos.

Duas semanas depois vou buscar as fotografias. Posso descrever aquelas da chapa como o retrato do meu pai se eu fosse o meu próprio pai. Parece a fotografia da carta de condução caso eu a tivesse tirado nos anos sessenta. Totalmente retro. Genial.

Só que agora a loja de fotografias, passa-se. Receio que o entusiasmo e a dedicação do senhor Cadiz à arte da fotografia passe tenha resistido ao tempo, mas não à sua doença.

Cadiz

7 thoughts on “Passe de época

  1. nostalgia! acho que foi aqui que tirei as minhas fotografias para a minha carta de condução, que na altura tirei no porto, em 98.
    subia umas escadas após passar aquela porta… soalho velho com intenso odor a madeira húmida. agora, não me lembro quem é que lá me mandou ou indicou este local, porque a julgar pela entrada eu nunca me tentaria com medo de perder um rim…

  2. Poderá não ter resistido ao tempo, mas à memoria de todos aqueles que o admiram será sempre o doce, terno e alegre Sr Cadiz, “Iáaaa”.

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