Isso é uma arma no bolso, ou tem cinquenta cêntimos que me arranje?

Diz o Viriato que detesta que lhe perguntem nas caixas registadoras se tem mais dinheiro trocado. Já eu, eu agradeço.

É que os meus detestares são outros.

Não gosto como num instante junto mais dinheiro em metal no bolso das calças do que em papel na carteira. Prefiro papel a metal, e plástico a papel.

Se ao apresentar uma nota gorda para pagar uma pequena quantia nos perguntarem «E cinquenta cêntimos, não tem?» se lembrarem que está montada a cena para rematar «Porquê? Esse não chega?» podem ter ganho a oportunidade de se mostrarem espertinhos – mas a que custo?

O acumular de trocos no bolso começa com a preguiça de fazer contas, de ter de ir ao fundo do bolso das calças e trazê-las de lá, com cuidado para não deixar cair muitas por entre os dedos.

No início, as moedas causam uma leve chocalheira que me faz parecer que trago botas com esporas num Western.

Só que às tantas tenho tantos quilogramas de metal comigo que já não sou um cowboy mas um RoboCop.

Por isso, quando estendo uma nota à caixa, estou a torcer para que me pergunte quanto deveria eu, em moedas, dispensar-lhe. Assim escuso de fazer contas de cabeça e de içar uma tonelagem de moedas superior àquela que iria precisar para pagar.

A quem minto descaradamente é aos parasitas que atitam flauta de bisel e deixam cair pinos malabares ao chão como se estivéssemos em 1755 quando me pedem dinheiro nas ruas. A esses respondo «Não tenho trocado» e sigo em frente, com os bolsos a fazer schuim, schuim, schuim, como um forasteiro em direcção a outra cidade sem que ninguém tivesse tempo de me perguntar o nome.

One thought on “Isso é uma arma no bolso, ou tem cinquenta cêntimos que me arranje?

  1. A questão de andar com moedas no bolso não é propriamente algo que me preocupe, já que, por regra, o meu porta-moedas parece uma autêntica arma de arremesso, sempre cheio de “miudezas” metálicas. Mas compreendo o que dizes. Contudo, são dois os prismas desta mesma questão.
    Eu, do modo como vejo as coisas, entendo que não devemos ser nós, mesmo tendo moedas, a ter que fazer as contas. Se temos uma nota de dez para pagar um euro e quarenta e cinco, devemos ter completa liberdade para o fazer, esperando, pois, receber os oito euros e cinquenta e cinco cêntimos de troco que temos a haver; até porque se me apetecer ser preguiçoso não estou, por aí, a imiscuir-me ao cumprimento da minha obrigação que é pagar o preço daquilo que adquiro.
    Mas, lá está, quando tudo se resume à facilidade ou dificuldade de fazer contas, tenho para mim que devem ser os senhores e senhoras que nos atendem os verdadeiros onerados com tais operações de um cálculo mental de que muito, eles próprios, se orgulham possuir – muito acima do resto da média.
    Reside tudo em saber a quem atribuir o ónus de fazer contas de cabeça. E muito sinceramente prefiro que sejam os senhores comerciantes a fazê-las (até porque vendem coisas, não as oferecem). Já me dizem que tenho de pagar, ainda por cima que tenho de lhes dar o dinheiro certo.
    Não está certo, a meu ver.
    Se quiseres um exemplo concreto deste meu ódiozinho dou-te o seguinte: cá em Coimbra, os SMTUC, que prestam um deplorável serviço, com atrasos, greves e plenários, chegam ao desplante de apor mensagens nos seus autocarros em que é dito às pessoas para “facilitarem a vida” aos motoristas, dando um euro e cinquenta certos, na compra dos bilhetes de uma só viagem que custam essa quantia… Eu não gosto de lhes facilitar a vida (sorriso malévolo).

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