Uma ideia é ligar a luz

São aqueles momentos enquanto estamos a adormecer dos mais férteis em ideias espontâneas. Já por causa disso tenho residentes na minha cabeceira um caderno e duas lapiseiras. Sim, duas. Lapiseiras que me serviram bem durante muito tempo, mas que estão agora reformadas da obrigação de andarem comigo durante o dia. O problema portanto não é ter com que escrever, nem onde. O que acontece é que quando chega uma ideia digna de registo já estou demasiado aconchegado à minha imobilidade, e tudo o que tenho vivos são apenas os meus pensamentos.

Então eu penso, «pronto, esta é uma boa ideia. Poderia ligar o candeeiro e escrevê-la, mas isso iria magoar-me a visão. Já estava quase a dormir, e amanhã preciso de acordar descansado. Bom, vou repetir mentalmente a ideia umas tantas vezes. Além disso, esta é uma ideia tão boa, que nem precisa de ser registada. Amanhã de certeza que me vou lembrar dela durante o dia. De certeza.»

Passei o dia todo sem me lembrar do que me tinha esquecido. Obviamente, a tal ideia caminhou para a Terra das Sinapses Perdidas, donde nunca mais voltará.

E as melhores ideias são sempre aquelas de que não já nos lembramos, não é? As tais que nunca serão julgadas à luz da consciência.

Como um negativo, uma iluminação só é revelada quando fixada no papel. Até registá-la, se me permitem uma analogia eltonjohniana, uma ideia é apenas uma pequena vela ao vento.

À noite, é preciso ligar a luz mesmo. Ou então treinar a escrita no escuro, como algumas das minhas notas demonstram. Só que esticar os braços até à cabeceira, pensar que é preciso manusear o caderno e escrever, são coisas tão dolorosas para quem tem de sair dum conforto obnúbil.

Mas têm mesmo de ser escritas. Só assim poderemos ter a certeza de que afinal aquela ideia não era assim grande coisa, e que podemos continuar o dia descansados porque outras melhores virão.

4 thoughts on “Uma ideia é ligar a luz

  1. O senhor Palomar fala de algo parecido, no capítulo “acerca do morder a língua”.
    Entre o “Bolas…mais valia ter ficado deitada…” e o “Bolas! Porque não anotei aquilo?”, nem sempre o último é o mais irreversível. Isto é particularmente válido para e-mails escritos a altas horas da noite, em que depois de clicar no “enviar” já é tarde. :-/

  2. O Voltaire tinha o mesmo hábito de escrever, após esse estado de semi-inconsciência quase-perfeita, como lhe chamo. Também a mim, por vezes, me invadem as melhores rimas para poemas que nunca hei-de escrever, logo que estou para entrar na fase mais profunda do sonho. Enfim… Será que a procrastinação nos persegue até aqui?

  3. Bom isso de ter boas ideias em fase de semi-inconsciência deve ser cansativo … acho eu… confesso que as melhores ideias tive-as bem acordada … mas este texto fez-me pensar e se já as tive e não as consigo recordar? e como se não as tivesse tido…no fundo, no fundo, no fundo mais vale não pensar nisso…
    Mudando de assunto, o Doctorices tem este blog anexado em link, contudo não aparece em “quem me liga”, RS.

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