Vejamos o seguinte alinhamento de notícias: a propósito do campeonato europeu de futebol, hoje a SIC arranja uma forma de engatar uma peça sobre o tremoço. E durante cerca de quatro minutos fala-se de como o futebol puxa a cerveja e a cerveja puxa o tremoço, ou se calhar é o tremoço que puxa a cerveja, que se calhar puxa as peças parvas como esta. Mas o certo é que é num telejornal, com o dever e a responsabilidade de informar e iluminar os seus telespectadores, é do tremoço que se fala.
A peça seguinte tem mais de cinco minutos. É sobre o MySpace ter sido traduzido para português. Às custas do interesse comercial que as relações públicas do MySpace, que formatam as sua publicidade na forma de comunicados de imprensa a ver se os média caem, conseguem as redacções de telejornais medíocres aceder alegremente a tais chamadas e encher assim mais um bocado de tempo de antena com eventos não noticiosos. É que as notícias, essas, exigiriam muito dos jornalistas.
E se parecer estar a ser injusto, no final da peça do MySpace anunciam-se os concertos do Juanes em Portugal. Uma vez mais, o telejornal ao serviço das relações públicas dos interesses do mundo das relações públicas do negócio dos espectáculos.
Enquanto este horror se passava na SIC, espreitei o telejornal da RTP1. Aí passava uma notícia duns camionistas que caíram à água e foram salvos por uma mota de água, seguida doutra duns portugueses que se propunham atravessar o canal da mancha a nado. Claramente um tema mais aquático.
Às vezes parece-me que nas redacções, quando se esgota o futebol e a auto-promoção da estação, se procura nos feeds das agências noticiosas exclusivamente o termo «fait-divers». Dessas trivialidades se escolhe então o material com que preencher os telejornais que, com tremoços em vez de notícias, já não são telejornais nem são nada.
A silly season, este ano, chegou mais cedo.