É por causa disto que não vou ver este filme Ficheiros Secretos

Eu fui um adolescente totalmente fã da série Ficheiros Secretos. Para um cromo, o tema dos extra-terrestres era fascinante em si, sobretudo quando tomado juntamente com uma visão pretensamente científica e crítica dada pela personagem Scully. Depois, a perseguição pelo Governo, essa entidade fácil de entender como símbolo de autoridade para os espectadores adolescentes que a hostilizam. Finalmente, a estética da série: a música do oboé, as noites com luz azul, e os olhos negros de quem fosse tomado pelo vírus. Parecia-nos bastante original. E deve ter sido (mas também, nessa idade ainda não tínhamos visto muito).

Havia na série um momento que eu esperava particularmente: a entrada dos três cromos dos computadores, os Lone Gunmen. Eu devia ter vergonha de escrever isto, mas eu em miúdo achava que o estilo de vida daqueles três era algo a que pudesse aspirar, como se fosse uma coisa plausível. Imagine-se: ser financiado por anónimos e grupos de interesses anti-Governo para dedicar a vida a tirar freewares da Internet para descriptar coisas, hackar sistemas e melhorar a definição de vídeos, fotos e gravações aúdio. Seria uma coisa… assim.

O meu amigo Cachapa, se não tivesse cortado o seu cabelo, poderia vir a ser o Langley. Já eu iria querer ser o tipo de barba de aspecto civilizado, o Byers.

Bom, que a série Ficheiros Secretos durou tempo demais, todos os X-Philes sabem. E todos admitem que abandonaram a série quando a Fox insistiu em prolongá-la tempo demais. Eu fui um deles.

Só que um belo dia decidi ver um episódio inteiro da série que passava mas que eu já não lhe ligava. Azar o meu, pois foi justamente o episódio em que os três Lone Gunmen morrem. A partir daí tornou-se claro que a série tinha morrido bem morta.

Há tempos encontrei a existência duma série dedicada àqueles três: The Lone Gunmen. Encomendei-a da Amazon, e já vi metade dos episódios.

Uma desilusão. Se dantes os três eram uma espécie de alívio cómico da série Ficheiros Secretos, esperava-se outra coisa duma série inteiramente dedicada aos três. Mas não, foi antes tratada da pior forma: cada episódio é uma gigantesca dose de piadinhas. As personagens não têm profundidade dramática, é tudo muito básico, e o tom de escrita está na pior zona possível do humor: o engraçadinho.

Tem também uma fórmula: cada episódio começa com um picar duma cena dum filme conhecido, como a entrada num computador seguro por cordas suspenas como no filme Missão Impossível logo no primeiro episódio. Mais que um cliché, isto é um autêntico clam.

Ou as minhas memórias de adolescente favorecem as personagens como parte da série dos Ficheiros Secretos, ou esta série assim derivada tem uma escrita de qualidade muito inferior aos próprios momentos em que os três apareciam.

Seja como for, os três morreram quer na diégese quer nas minhas memórias. E como o próximo filme não os vai incluir para salvar a sua existência dramática, está esta parte das minhas memórias da série estragada.

Já o título deste segundo filme dos Ficheiros Secretos é tirado do poster que o Mulder tinha no seu escritório, cuja reprodução comprei há uns anos na eBay. O que era outrora discreto e só para insiders, passou agora para primeiro plano de forma grosseira.

E para não arriscar estragar toda o meu gostar das memórias da série, mais vale estar quieto e não ir ver o filme ao cinema.

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