Em 11 de Setembro de 2001 revelou-se um mundo mais estúpido do que julgávamos. Foi o dia a partir do qual milhares e milhares de opiniões públicas no mundo inteiro se regozijaram com a morte de cidadãos americanos, mesmo que naquele evento tenham perdido a vida cidadãos de todos os continentes.
Não me refiro aos talibans, mas a uma imprensa, uma suposta elite europeia, e a cidadãos ocidentais que clamaram que os americanos tiveram, com o atentado, o que mereceram.
Que os americanos se imiscuem na política externa dos outros países, que os americanos são uns ignorantes, que os americanos são uns consumistas. Que são isto que são aquilo, que a moralidade dos americanos é tão inferior à nossa, que pessoas daquela nacionalidade merecessem ser realmente executadas.
Como é que isto pôde acontecer? Como puderam ser emitidas entre nós tamanhas opiniões de ódio semelhantes às dos terroristas?
Nos anos seguintes após o 11 de Setembro, sempre que assistia a reflexão e discussão nos média e nos espaços públicos ocorria-me que afinal não é assim tão estranho que o nazismo tenha vingado na Europa do século XX. Agora, no início do milénio e a poucas décadas após a queda de Hitler, via toda uma população ser vítima duma espécie de racismo aberto e socialmente aceitável.
Enquanto que um ocidental não lhe passaria pela cabeça emitir uma opinião racista contra uma das etnias protegidas pelo politicamente correcto, e se calhar só mesmo por isso, já não só se permite como é publicamente acolhido por uma opinião anti-americana.
Tal como os judeus na Alemanha nazi, por serem prósperos os americanos parecem também poder ser vítimas de discurso hostil. Não faz mal dizer mal deles, afinal eles são ricos e têm tudo! O anti-americanismo é assim o novo racismo.
Tudo isto me parece uma questão de moralidade: porque uma classe ocidental desaprova a política e o modo de vida do liberalismo americano, então mereceriam aqueles cidadãos serem castigados. Tal e qual o pensamento que levou aos atentados.
Foi só a 11 de Março de 2004 que muitos dos europeus e américo-latinos terão ficado a compreender o que era estar do lado das vítimas do preconceito mortal. Mas entretanto todos aqueles que emitiram opiniões desumanas são culpados de terem acrescentado mais preconceito ao mundo.
Quando a moralidade veio junto com a aprovação do castigo capital, então nisto o pensamento dos nossos cidadãos em nada diferiu daquele dos fundamentalistas islâmicos.
Em 2001 o mundo ficou horrorizado por ver que os terroristas se barbeavam e vestiam como nós e usavam os nossos after-shaves para ficarem iguais a nós ocidentais. Mas a verdade é que nós e eles somos mais iguais do que possamos pensar. Os terroristas estão entre nós, e a ironia é justamente essa: os ocidentais podem também ser violentos preconceituosos fundamentalistas.
Acho que estás a exagerar um pouco. Isso, ou assistimos a média diferentes nos dias que seguiram o ataque.
Os noticiários que vi foram unânimes a criticar os atentados e a lamentar o sofrimento do povo americano. Não acredito que a cobertura tivesse sido muito diferente se tivesse acontecido na Europa (como veio a acontecer mais tarde, em Madrid e em Londres).
O que aconteceu foi uma análise das razões que estavam por detrás dos ataques, e foi aí que houve críticas à actuação dos EUA no Médio Oriente durante as últimas décadas, que acabou por contribuir para a criação dos grupos fanáticos que levaram a cabo estas loucuras.
Mesmo assim, as análises foram mais num tom de “foram estes comportamentos que geraram esta situação” e não de “bem feito, para não se andarem a meter onde não eram chamados”.
Claro que também conheci muitas pessoas que, no privado, pareciam contentes com o que tinha acontecido, mas esses foram a minoria, e parvos há em todo o lado.
Sem muito a acrescentar ao que Ricardo disse. Na mosca! O 11 de setembro revelou mais a nossa imoralidade do que a fragilidade da segurança doméstica dos EUA. Nesse dia, o mundo sentiu aquela alegria dos invejosos: incapaz de conseguir o que o outro tem, deseja que ninguém mais o tenha. A simples existência de um país como os EUA é motivo de vergonha para o mundo inteiro. Um punhado de imigrantes cristãos em terra desconhecida construiu em menos de 200 anos o que versos corânicos, intelectuais iluministas, libertadores latino-americanos, sovietes e comissários do povo prometem há 1500, mas cumprem sempre (e necessáriamente) o inverso das suas belas palavras. Não é a toa que a maioria da população mundial (ou pelo menos a sua parcela mais falante) apoie maciçamente um candidato escancaradamente anti-americano que talvez nem mesmo seja cidadão estadunidense.
Felizmente, só o povo americano tem o direito de votar no presidente dos EUA.
Olá Cachapa. De facto a minha menção à imprensa não se referia à opinião editorial, pois essa foi de facto efusivamente solidária. Eu referia-me sim a comentadores que usaram a imprensa como plataforma para divulgar as suas opiniões básicas do ponto de vista humanitário, assim como todas as outras pessoas que publicamente (mesmo que em grupos de colegas) se mostraram contentes com o atentado.
Mas se calhar é como tu dizes: é possível que sejam, simplesmente, parvos (mas não é esse mesmo o problema dos racistas?). E o título do meu artigo poderia muito bem ter sido «O dia que revelou um mundo cheio de parvos».
Cachapa,
Dizer que “foram estes comportamentos que geraram esta situação” significa exatamente dizer que a culpa é dos EUA. Esta é a inversão de sujeito e objeto comum a comunistas, nazistas, islâmicos e revolucionários em geral: 3000 civis inocentes são mortos e a culpa é deles. Che Guevara, ao fuzilar prisioneiros algemados, também vivia a dizer que o sacrifício era dele. Foi assim também à época do vandalismo nas ruas de Paris e quando da “revolta” contra as caricaturas dinamarquesas de Maomé.
A mídia mundial inteira interpreta os atentados com essa inversão demoníaca. E no Brasil não só não foi diferente, como a mentira já se espalhou até pelas escolas e é ensinada como fato histórico. Havia um video no YouTube de um “professor Carlão” que entrava em sala de aula vestido como Osama Bin Laden. O vídeo já foi apagado, mas o blog do jornalista Reinaldo Azevedo ainda tem os posts a respeito, inclusive com transcrições da palhaçada diabólica.
Obviamente, ninguém na imprensa fala essas coisas na linguagem humana normal, senão deixariam bem evidentes as suas inclinações ao terror e seriam imediatamente execrados pela imensa maioria dos leitores, que ainda tem um pouco de juízo. Em vez disso, lançam mão dos típicos floreios politicamente corretos, que por exemplo transformam aborto em “interrupção voluntária da gravidez” e perseguição anti-religiosa em “estado laico” ou “combate a homofobia”, e assim ganham a confiança do povo.
Ricardo
O Cachapa tem razão ao dizer que parvos há em todo o lado e eu acrescento que nos EUA há muitos, a começar por um tal de Michael Moore…
Não acho que tenhas exagerado em nada, antes pelo contrário terás ficado aquém em relação a muita aleivosia que li e vi em imprensa dita de “referência”…
A Europa é um imenso e dispendioso museu que inclui todas as especialidades, mas cheio de penachos e atritos próprios desse tipo de locais.
Interessante esta “conversa” entre admiradores dos EUA.
Aprecio particularmente o oportunismo do Sr Daniel Gurjão ao tentar colar-se às opiniões do autor deste blog (sendo este um ateu confesso) mas toma posições reaccionárias, típicas da ICAR. Sim, você sabe do que eu falo.
Cumprimentos
Interessante é eu jamais ter discutido religião com Ricardo José e saber só agora, de uma fonte de quinta mão, que ele é ateu. Supondo que seja ateu mesmo e não se trate de uma mentira petralha (procurem o blog de Reinaldo Azevedo para saber a definição do termo), ele continua com TODA A RAZÃO. Ricardo José disse fatos facilmente observáveis, inclusive no seu comentário, Hammurabi.
Eu achava que só no Brasil os níveis de burrice haviam chegado a níveis tão elevados, mas essa cobrança de coerência vinda de Hammurabi me fez mudar de idéia. Assim como para a maioria dos brasileiros (principalmente os que tem escolaridade), para Hammurabi ser coerente significa agarrar-se a um bloco homogêneo de opiniões com unhas e dentes durante a vida toda, não importando se as opiniões são erradas ou não. Então quer dizer que um católico não pode concordar com um ateu ou vice-versa, mesmo que diga a verdade? Então quando Ricardo José disser que dois mais dois é quatro, eu vou dizer que ele está errado?
Deve ser a Obamania…
P.S.: 1) Se considerarmos que os regimes ateus (principalmente os citados por mim nos comentários anteriores) mataram muito mais gente do que os regimes religiosos, a atitude de um ateu de mostrar sensibilidade à tragédia alheia é bastante positiva. A Revolução Francesa mal havia completado um ano e o regime já havia matado o que a inquisição espanhola levou quatro séculos para matar. Os regimes comunistas, então…
2) Dos “Founding Fathers” dos EUA (signatários da Declaração de Independência, Artigos da Confederação e Constituição dos Estados Unidos), somente 3 eram católicos.