TEDxO’Porto e o fetichismo da motivação

Sou um fã das conferências TED como tanta gente1, e como tanta dessa gente sigo-as no sítio web TED.

Por isso tive interesse em inscrever-me para assistir ao vivo ao evento TED mais próximo possível de minha casa, o TEDxO’Porto2. Fui seleccionado.
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Deixo então o resumo das conferências a que assisti, segundo aquilo que retive delas:

Paulo Pereira da Silva — Um tipo da Renova chegou e disse que estudou Física para conhecer o Absoluto, mas que anos depois acaba a dar uma entrevista de duas
páginas ao New York Times sobre papel higiénico preto (só que não foi uma entrevista de duas páginas, como ele disse, mas um artigo). Como é que isto aconteceu?, pergunta. Retrocede ao passado, e diz que se fosse um funcionário menor a sugerir papel higiénico preto, que talvez a ideia não passasse dentro da empresa. Pelo meio, diz que tem uns fotógrafos residentes a fotografar a empresa.

Ricardo Monteiro — Apresenta o filme publicitário completo do Pingo Doce. Enquanto passa o anúncio, Ricardo Monteiro sorri, abana os braços ao som da
música, parece vibrar com o anúncio. O público aplaude com energia. Eu não, pois não gosto daquele filme. Ele diz então que não foi ele quem fez o anúncio, e procede a criticá-lo negativamente. Que é um estereótipo dos portugueses parolos, e que não se identifica nada com aquela imagem. Bem-feita para as pessoas que aplaudiram o
anúncio. Mas depois continua e acrescenta que o anúncio até é bom e que tem uma taxa de retenção elevada, pois a publicidade vive de estereótipos. Eu sabia.

Miguel Veríssimo — Um arquitecto noviço muito bem conservado diz que a maior parte do planeta está artificializado pela arquitectura. Nada de novo, e só me lembro disso.

Manuel Lima — Apresenta uma sucessão de gráficos de visualização de dados, como podemos encontrar mensalmente nas páginas centrais da revista Wired.

Leon Chen — Um chinês com uns sapatos FiveFingers fez muitas coisas boas, andou pelo mundo, cumprimentou o Al Gore e ajudou pessoas dum terramoto na China. Parece colaborar numa associação chinesa, a ver pelas fotografias. Tirou a média mais elevada a matemática no Reino Unido, por isso os sapatos
perdoam-se-lhe como excentricidade duma mente brilhante. Ainda por
cima tem só 22 anos. Nada mau.

José Matos — Apresenta um PowerPoint em Comic Sans, numa apresentação que normalmente faz a crianças. É gira, apesar de não ser para mim que já sou
crescidinho. Mas pronto, fico a ver como é que ele fala às crianças. No entanto, mesmo sendo um discurso para crianças, é pena a apresentação assentar na ideia do planeta ser ajustado à nossa vida, e não o contrário. Não é lá muito científico, para uma divulgação científica.

Miguel Condesso — Um fulano para aí mais novo que eu diz que é um astronauta pois foi para o norte da Europa trabalhar para uma marca de telemóveis porque a mãe que era médica tinha um telemóvel quando ele era novo. Foi lá de carro, bateu à porta e ficou com o emprego. Depois quis voltar para Portugal e já não me lembro do que é que ele faz agora, mas deve ser inspirador porque ele disse coisas como «Why not» e para seguirmos os nossos sonhos.

Nuno Arantes Oliveira — Três histórias sobre morte. Nada de particularmente surpreendente em cada uma, mas na minha opinião este foi o melhor orador da sessão. O tom realista, com os pés assentes na terra, sem a energia excessiva de
quem se esforça por se promover como dinâmico, foi com o qual mais me relacionei. Além disso, foi o único que trouxe uma questão sem resposta. E eu gosto disso.

Mário Pardo — Dá saltos com o patrocínio da Red Bull, leva vestida uma camisola com a marca para o evento, e diz que o importante é não ouvir as pessoas que nos dizem que não somos capazes.

Depois uns oradores portugueses sobre ciências da vida – umas em inglês outras em português – e depois:

Miguel Peixoto da Silva — Depois dum vídeo publicitário da marca Displax, a apresentação foi uma cópia parcial do que já tinha visto, imagine-se, na
apresentação de Nicholas Negroponte no TED
, em 1984, sobre toque como interface. O que é irónico, dado o caso da sua empresa estar sob controvérsia
de se estar a apropriar da autoria da tecnologia da Visual Planet
.

Michael Tchong — Piadas tiradas da net, de blogs de imagens do tipo Failblog,
e definições do Urban Dictionary, fazem rir a plateia, que pelos vistos não conhecia
aquele humor da net. Se calhar o culpado de já conhecer as piadas dele é meu, por passar tempo a mais a ver coisas engraçadas na net.

Helena Marujo e Luís Neto — Poderiam ser os Broa de Mel da psicologia, causando-me embaraço pela minha carreira clínica. Mas isto pode ser porque eu não vou à bola com a psicologia positiva3.

Nilton — Estava à espera de piadolas de encher, mas surpreendo-me com alguém que se esforçou por apresentar o lado mais científico do humor. Recorre a citações
de filósofos, mas da psicologia pega no mais popular, a desactualizada psicanálise. Comete uns pequenos erros (o lóbulo central não é o mesmo que o lóbulo frontal), mas mesmo assim, mesmo apesar de tudo, há que lhe reconhecer o esforço.

Wellington Nogueira — Um brasileiro pergunta se quer que fale em português ou inglês. A plateia responde «portuguêeees» e ele diz «Ok, vou falar em
inglês». E lá apresenta o projecto dos Doutores da Alegria cheio de vitalidade e num bom sotaque americano4. A audiência reage emocionadíssima.

Marta Crawford — Não sabia que ainda se pode falar de sexo em público e parecer uma pessoa ousada e revolucionária.

Tudo isto foi organizado por Manuel Forjaz, e da organização do evento não há nada de grave a apontar. Manuel Forjaz parece ter organizado tudo com energia positiva, de quem acredita realmente na contribuição do TED para melhorar o mundo, e ainda por cima
produziu-o de forma a oferecê-lo a custo zero aos seus participantes, com catering e tudo.

No entanto, saí de lá não inspirado, mas com um certo mal-estar. Vou ver se consigo explicar porquê.

Primeiro que tudo, é optimismo a mais para mim. Aqui poderia o leitor perguntar-me: «Se não se identifica com o espírito optimista, então porque é que foi ao TED?»5.

Fui porque gosto do ver as conferências internacionais do TED na Internet. Naquelas conferências, grandes oradores partilham os seus saberes ou os caminhos para os saberes. Ou então partilham uma preocupação sobre um assunto importante, e dizem o que se pode fazer sobre isso.

No TED portuense, a sensação que fiquei é que a maior parte dos oradores se centraram em dois objectivos: a auto-promoção, e o exercício do papel dum motivador daqueles do tipo «sigam os vossos sonhos».

Ora, isto não me satisfaz. E não me entendam mal, pois nem me considero um pessimista. Só que o optimismo é como açúcar: um bocadinho é bom, muito enjoa.

Atitudes hiperpositivas do tipo The Secret não mudam coisa nenhuma. Factos, planos, e trabalho mudam. O método não é poético, mas os resultados são.

E numa conferência onde tanta gente meta-reflectiu sobre o que é o TED, ninguém disse realmente o que é o TED: umas conferências que mudaram de conceito ao longo dos anos, e que actualmente servem para que os oradores apresentem a sua visão estratégica para mudar o mundo para melhor.

Só que dizer às pessoas para acreditarem nos seus sonhos não é estratégia, é cliché. Até pode ser um daqueles clichés verdadeiros, mas não deixa de ser tão passável como
falar do tempo.

Depois, ver-me no meio de centenas de pessoas como eu é uma coisa horrorosa. Já outros artigos se debruçaram sobre o efeito de escala dos espaços de reunião de pessoas na Internet, como fóruns ou redes sociais. Robert Pagliarini, por exemplo, fala da sensação de
perda do sentido de unicidade em redes sociais quando indivíduos se encontram perante um número imenso de pessoas que partilham da mesma identidade que o próprio.

Ora, a identidade dos participantes daquela conferência é, no geral, gente que se considera com – ou valoriza as competências de – criatividade, inovação e empreendorismo, palavras que fazem parte do ideário duma certa população, ali sobrerepresentada.
Gente duma classe económica confortável por um lado e, por outro, aposto, cada um daqueles considerando-se de inteligência acima da média. Tanta gente a achar tudo isso de si, no mesmo espaço, é aflitivo. Sentia-se o peso da auto-valorização na atmosfera.

Claro que até pode ser mesmo verdade tudo isso, o que nem é de espantar, pois se a inteligência se distribui numa curva normal, para cada concerto do Tony Carreira terá de haver um evento cheio doutro tipo de pessoas noutro lado qualquer.

Agora, se os valores dos participantes são a criatividade e na inovação, é extraordinário ver como parecem tão homogéneos, fisicamente. Os cabelos conservadores, as roupas escuras e blasé.

Certo que não é bonito julgar pessoas pela sua aparência, mas podemos descrevê-las. Pois se numa escola de artes podemos encontrar, em pequenas turmas até, como dentre os meus alunos, uma latitude gigantesca nas expressões da individualidade pela aparência, do mais normativo ao mais ousado, naquele grupo tão grande, que era a plateia do
TEDxO’Porto, todos pareciam parte duma estreita identidade pessoal.

E se parece que estou a maldizer os participantes, não estou. Até porque me reconheço mais ou menos no estereótipo.

Excepto nas partes como o gostar de ser motivado. Disso não gosto6.

Nem do espírito de grupo7. Curiosamente, o espírito de conferências multi-temáticas como o TED parece ser o de estimular o pensamento divergente. Mas se se o embrulhar sob um mesmo tom, num optimismo formulaico de segunda mão, acaba-se por anular o propósito de tudo.

O organizador do TEDxOPorto, Manuel Forjaz, bastante honesto e humilde quanto ao seu esforço para que tudo corresse pelo melhor, com a melhor das intenções apelou
constantemente ao networking, à troca de cartões de visita. É de facto uma boa intenção, este apelo à transposição do modelo americano das pessoas se promoverem a si mesmas. Mas isto é Portugal e nós somos todos metidos para dentro. Além disso, eu próprio não
conseguiria arranjar nada de interessante para falar com uma pessoa que, o mais provável, é ser demasiado parecida comigo (credo, que horror!).

Mesmo assim, estou inscrito já para o TEDxOPorto 2011, e candidatei-me até a outros TED portugueses, o TEDxLisboa e o TEDxEdges, no Algarve. Quero continuar a dar o benefício da dúvida aos oradores portugueses, que com o tempo pensem mais no espírito da ciência – o da partilha livre de saberes, mesmo se estivermos a falar de artes – do que do marketing pessoal8.

Espero também que deixemos de ter vergonha de sermos portugueses, que não decalquemos à força a psique de outras culturas até ao ponto do desconforto. Não somos um país de Tony Robbins; somos o país do fado.

O nosso lugar no mundo não depende dum optimismo ou pessimismo cultural. Veja-se o caso de países de sucesso económico como a Suécia de Ingmar Bergman ou dos auto-derrotistas israelitas9.

Por isso, aqui entre nós portugueses, aprendamos uns com os outros à nossa maneira, à maneira melancólica e pensativa como da apresentação de Nuno Arantes de Oliveira10 deste primeiro TEDxO’Porto.

Irei continuar, se me deixarem, a procurar Portugal nos TED portugueses por mais uma ou duas conferências. Somos um país pequeno que poderia ser grande se nos víssemos como grandes. Falemos português, aceitemos-nos como somos. É capaz de ser o primeiro passo para a nossa afirmação nacional e internacional, e para que possamos depois pensar em
fazer coisas boas para o mundo à nossa maneira. À maneira portuguesa.

1Para quem ainda não conhece (haverá alguém?), o TED é fundação que organiza umas conferências com eminentes pessoas que contam o que estão a fazer para mudar o mundo para melhor.

2Porque não TEDxPorto? Porque escrever o nome da nossa cidade em inglês, ainda por cima com um apóstrofo misterioso?

3Procurar «ser feliz» assenta numa premissa fundamentalmente errada. Leia-se A Conquista da Felicidade, de Bertrand Russell. Ou então, num dia destes, posso escrever sobre isso.

4Se calhar por isso mesmo já ter feito questão em falar em inglês.

5Não que eu considere o TED inerentemente optimista, mas presumo que hajam leitores a achar isso.

6Precisar de ser motivado é tão classe privilegiada, de tão confortável que estão que não encontram nada que os mova para a acção.

7Caramba, como é possível toda a plateia ter aplaudido com energia o anúncio
detestado do Pingo Doce? Porque em grupo se perde a crítica individual.

8Porque falaram portugueses em inglês para uma plateia de portugueses,
senão no prospecto de terem os vídeos das suas palestras vistos na Internet?

9Do que conheço da cultura israelita, é muito parecida com a portuguesa neste aspecto.

10Para mim representou o nosso estilo português, de conversa franca sem fingir grandiosidade.

6 thoughts on “TEDxO’Porto e o fetichismo da motivação

  1. Pelo que contas, parece-me que foi tudo um pouco «wuss», mas é possível que o problema seja meu porque não acho piada à nova moda do empreendedorismo e não acho piada nenhuma ao discurso motivador.
    Também me fez espécie que o senhor Wellington Nogueira tenha falado em inglês para uma plateia portuguesa, sendo ele brasileiro. Duvido que houvesse na plateia um número de estrangeiros que justificasse a substituição do português.
    Se o programa do próximo TED for interessante ou se se realizar em Coimbra, talvez considere que vale a pena experimentar.

  2. Não pude ver a TEDxPorto, em vez disso segui a TEDxAustin via stream na internet. Por isso estava curioso sobre o que as pessoas acharam da conferencia no porto.
    As minhas expectativas não eram muito elevadas porque e normal nas conferencias que vou assistindo haver uma fraca preparação ou mesmo falta de jeito para o fazer. No final está tudo a ler powerpoints e a vender produtos a plateias erradas.
    Mas duas notas:
    Primeira, gostaria de ler sobre isso a que chamou “psicologia positiva”.
    Segundo, não acho piada a este orgulho português. Só me faz lembrar as manias futebolísticas que não ajudam nada. Bons ou maus, somos como somos. Trazer a nacionalidade à baila não acrescenta nada de útil à discussão que não bairrismos e saudosismos…

  3. Olá Ricardo. Tendo como motivação a partilha das visões eu o astronauta não uso barba descuidada, nem viajei Suécia batendo à porta da Ericsson, mas questiono-me muitas vezes, porque não? E o que faço com esse desafio, a minha atitude, tem feito com que consiga muito daquilo que acredito e que de facto sinto como missão. Porque não evitar a displicência de confundir rostos e mensagens? Só assim as opiniões podem ter sentido!

  4. Jorge Sá,
    Encontra um artigo na Wikipedia uma pequena descrição da psicologia positiva. Depois veja uma visão crítica.
    Quanto ao seu reparo, não falei em orgulho nacionalista, mas de identidade nacional, efectivamente para que sejamos — como diz — «como somos».

  5. Miguel Condesso,
    Tendo possivelmente condensado duas pessoas numa só, e agora passado este tempo todo sem encontrar vídeos do TEDxOPorto, não consigo fazer a verificação factual. Queira, por favor, corrigir-me se a descrição ainda estiver incorrecta.

  6. Pingback: O meu resumo do TEDx O’Porto 2011 – rjcp.pt

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