Quando eu era pequenino, olhava as janelas dos prédios que via da janela do carro. Era noite, e já toda a gente do mundo deveria estar a dormir. Toda a gente, excepto nós os que íamos naquele carro de regresso a casa. Os meus pais voltavam duma visita a casa duns amigos deles, por isso é que não estávamos nós ainda a dormir. Mas íamos a caminho, embalados no carro que me embalava.
Com a testa encostada ao vidro frio do carro deixava a vibração do motor massajar-me a massa cinzenta, adormecendo os meus pensamentos. Mas pelo caminho fora, sempre que via aparecer uns tufos de prédios, concentrados, tinha de levantar a cabeça para os ver melhor, para que o tremer do vidro não borratasse o meu olhar. Tinha de ver os mais finos detalhes que o olhar humano permitia das janelas tão pequeninas dos enormes prédios que passavam. Enquanto a minha atenção ia atrás das janelas, a mancha fria que ficava na pele da minha testa ficava atrás a lembrar-se do vidro por mais uns tempos.
Ainda hoje não sei como é possível outras pessoas não espreitarem para todas as janelas à noite. Não dá para ver praticamente nada do interior daquelas casas, é certo. São só luzes fátuas. Mas como estrelas, numa luz é igual a outra. E dessas pequenas variações das luzes das janelas, podemos extrair-lhes histórias tal como um astrónomo infere uma data de coisas dos espectros ópticos das estrelas.
O tom da luz, por exemplo. Às vezes é um tom esverdeado duma lâmpada fluorescente de cozinha. Outras, um amarelado dum candeeiro demasiado rococó que rouba a vitalidade toda às lâmpadas. Noutras, um branco de lâmpada incandescente nua, só isso e um tecto branco. Se um azulado muda de intensidade, lenta ou subitamente, é sempre uma televisão.
As cortinas. Grossas, cheias, lisas. Abertas ou fechadas, são as nébulas. As persianas, os obturadores estacionados. As persianas podem estar quase fechadas, mas não totalmente, sem que as pesadas faixas de plástico pousem umas nas outras. Dali saem pintas de luz, que deixam ver que quem lá está dentro deixou as frestas da persiana entreabertas para que a luz do Sol entre de manhã. É capaz de ser de alguém que acorde cedo, amanhã. Ou então podem estar totalmente abertas, o que não significa nada em particular, abertas de todas as possibilidades.
Às vezes dá para ver o candeeiro. E pelo candeeiro da sala se adivinha o tipo de gente que ali vive. Um candeeiro de design, mas dum design obsoleto. Alguém que o comprou quando se casou, com o gosto pela contemporaneidade da altura, mas que nunca mais o renovou; um tempo presente cristalizado. Ou um candeeiro de flores em vidro baço. Quem é que poderia gostar dum candeeiro que nunca poderia, à partida, imitar flores que não dão luz nem têm uma grande lâmpada Osram no lugar da espata?
Há ainda todo o tipo de topos de móveis, com louça, livros ou capas de arquivos, há quadros, pratos, e exaustores. Ou há roupa estendida à contra-luz da cozinha, mas nada mais que a visão impressionista que o vidro martelado das traseiras dum prédio deixem ver.
Hoje são cinco da manhã e ainda não fui dormir. Por muito tarde que seja, se for espreitar à minha janela, há sempre umas luzes aqui e acolá ligadas. Vejo uma luz ligada na sala de alguém. Ao lado, paira uma luzinha laranja. Alguém fuma à janela, sem acender a sua luz. Pelos vistos é mesmo verdade o que os militares dizem, que a luz dum cigarro se pode ver a grande distância.
Está frio, aquele frio duma noite fria. Como as estrelas, as luzes das janelas das pessoas não me aquecem em nada; estão muito longe. O vidro da minha janela do apartamento está tão frio como o vidro do carro dos meus pais quando eu era pequenino. Parece o vidro das portas dos congelados dum supermercado, mas do outro lado há casas e telhados e não pizzas e gelados.
A poluição luminosa da noite das cidades tirou-nos as estrelas, mas deu-nos outras. Cada janela com a luz ligada é uma pessoa cintilante. Brilhos anónimos, eles e eu. Consciências que pairam sobre as horas dos sonhos. É companhia oblívia para quem conduz, de quem anda a pé pela cidade a horas demasiado tardias. São a esperança acolhedora dum conforto para quem vai também a caminho. Mas até lá, até à obrigação contrariada de dormir, é aproveitar este estar acordado com o mesmo aconchego de quem dorme, e apreciar a cidade estrelada de janelas.
Tanto em comum. Algo que comprova que, em qualquer lado do Mundo, seja ele qual for, as sensações permeáveis à pele, podem ser universais!
Take care, F.