Diz-se, desde que me lembro, que a RTP como estação de televisão1 poderia ser como a BBC. Que sendo como a BBC produziria conteúdos de qualidade e de elevado carácter didáctico.
Poderia. Mas não é.
Tem telejornais parolos, erros ortográficos nos caracteres de ecrã, telenovelas, concursos parvos, e um programa da manhã com uma astróloga.
A RTP poderia ser serviço público, e poderia ser um serviço de qualidade.
Só que não é. Nunca foi. Nem nunca será.
A RTP é tudo aquilo que faz as pessoas deixarem de ver televisão. É parolice, bolor, e estupidez repetitiva. Os seus próprios funcionários críticos da linha editorial da estação chamam «fábrica» à RTP, como em «fábrica de chouriços»2.
Por isso pode muito bem ser deitada ao lixo.
A televisão como meio de ocupação de atenção do tempo livre doméstico das pessoas é obsoleta. A aquisição passiva de material informativo e de entretenimento editado e simplificado para o menor denominador comum tem causado um êxodo para a Internet.
Ficam então as discussões sobre privatização da RTP, baseadas no pressuposto de que aquilo deve ser mantido a expensas do Estado porque é serviço público, como se essse «serviço» valesse alguma coisa e fosse até essencial. Pois, só que não vale, nem é.
É que, que eu saiba, o serviço público deve garantir alguma necessidade essencial da população. Programação pimba e telejornais reduzidos a espectáculo tablóide não me parece ser algo que o Estado se deva obrigar a servir, nem que os cidadãos aceitem pagar com os seus impostos.
As próprias televisões, enquanto electrodomésticos, só sobreviverão enquanto ecrãs de saída de centros de entretenimento caseiros, com selecção de conteúdos feita pelos próprios espectadores através de aquisição de séries, filmes e programação original pela Internet. Os ecrãs das televisões ganham por serem maiores do que o do computador, e o sofá ganha à cadeira de secretária para visualizar conteúdos longos, maiores que pequenos vídeos no YouTube, podendo partilhar a visualização com outras pessoas na sala de casa. Mas o controlo desta experiência estará toda no cidadão, e não numa empresa de televisão, pública ou privada.
Assim as estações de televisão monolíticas tornar-se-ão progressivamente obsoletas. Cada espectador será um curador da sua programação, e terá até intervenção no seu decorrer, podendo até contribuir de volta com conteúdos para outros espectadores.
É neste contexto que devemos ver a RTP como, dentre dos vários canais de televisão que existem — e sob a égide do Estado —, um curador dos piores programas que existem, e um péssimo produtor de programas noticiosos e originais.
Por isso prescrevo aos canais de televisão da RTP a reciclagem. É que não consigo encontrar nenhuma justificação para se gastar euros dos nossos impostos nisto. E se nenhuma outra estação vier em seu lugar, melhor. Esta já não é mais a era do consumo passivo de comunicação.
1 Excluo desta conversação os canais de rádio da RTP. As rádios da RTP — Antena 1, 2 e 3 — são de boa qualidade para os seus públicos respectivos e, como lembra Shirky (2010) em Cognitive Surplus, o consumo de rádio é uma actividade que não requer exclusividade cognitiva.
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