Tinha eu dezassete anos, quando escrevi o seguinte poema:
Só (livre)
O meu anjo da guarda morreu há muito
Sim, fui eu quem assim o quis
As suas asas deixavam-me encoberto
Por isso matei-o e finalmente o desfizEle tinha-me oferecido protecção
Incómoda como uma torneira
Pingando a noite inteiraProporcionou-me Luz, mas uma luz de neón
E com uma cortina de madeira
Escondia-me a janela verdadeiraProteger é impor um limite decretório
Eu decido se quero ascender ao Céu
Ou se quero afundar-me no Purgatório
E foi por isso que matei esse anjo meu.
Escrevi isto em 1998, num computador já naquela altura obsoleto. Sempre achei que a falta de entretenimento é causa de produtividade criativa. Um 486 em 1998 já não corria jogos interessantes, e com a Internet ainda paga ao minuto as distracções ao computador eram limitadas. Por isso, num processador de texto básico que vinha com o OS/2 Warp escrevia os meus ocasionais textos e poemas.
Enviei então aquele poema para submissão para o Portugal em Linha, página que a segui enquanto emigrante em Macau, onde foi publicado. Numa pesquisa na Internet, encontro hoje o poema em mais sítios: num blog de Inês Mota, brasileira que o levou para o hemisfério sul; num fórum de fotografia para acompanhar uma foto; num fotolog duma Ninita, que mudou o género das frases para se tomar como autora1; plagiado também por um tal de Luis Fernando Etaniel Ribeiro que assim plagia o meu poema no seu Live Space; e numa colectânea amadora de poemas de amor, ainda que o poema não o seja. O que eu não adivinharia era que um poema meu deixado numa página de lusofonia pudesse vir a ser citado (ou plagiado) por uma única pessoa que fosse.
Não quero dar a impressão que estou para aqui a gabar-me da porcaria do poema, porque não estou nem é disso que quero falar. Lendo-o, consigo lembrar-me que o escrevi sem querer dizer alguma coisa em particular2, e o verso da cortina em madeira se fosse hoje escreveria uma «portada em madeira», que é idêntico em significado mas mais realista — e por aí adiante, até o reescrever totalmente noutra coisa qualquer melhor.
Mérito literário então à parte, quando escrevi e publiquei este poema estava no final da minha estadia em Macau. Aproximava-se o dia em que iria voltar definitivamente para Portugal onde, no país da minha língua, julgava vir a poder dedicar-me à escrita. Mal sabia eu que vir para Portugal, para entrar na Universidade, significaria precisamente o oposto: a imperatividade do trabalho universitário.
Estou há 12 anos no ensino superior3, e posso agora dizer com segurança que estudar no ensino superior significa não aprender nada de especial. Não se aprende nada na maior parte das unidades curriculares4 de cada curso, que premeiam a capacidade de responder a testes pela memorização acrítica, assim como o talento de encher trabalhos de grupo5 e artigos de pesquisa com palha da antiga e citações de livros de que não se leram mais que as próprias citações, por vezes tiradas ao calhas. Também não se aprende muito do resto da vida, tais são as obrigações académicas que os cursos exigem dos seus alunos, que roubam tempo livre para a literatura, as artes, e para a vida.
Sei que há pessoas que dizem que fazem tudo isso, e que até que estudaram medicina, e leram livros, e agora vão a conferências, fazem urgências e escrevem livros e artigos para a imprensa.
Agora todos se promovem como Marcelos Rebelos de Sousa. Dizem todos que dormem pouco, mas pelos vistos continuam sem tempo para nada. Cá para mim deitam-se tarde por ficarem a ver concursos ou PowerPoints parvos em anexos de correio electrónico, e os seus hábitos de leitura são vistas de olhos nas contra-capas dos destaques da Fnac. Não chegam a comprar livros, porque não têm tempo para os ler em tempo real de leitura. As suas opiniões acerca das generalidades da actualidade obtêm-nas em comentadores de televisão e, às vezes, em pequenas colunas de jornais ou posts curtos de blogs ideologicamente pré-seleccionados. Se isso é sinal de inteligência e brilhantismo, eu não tenho nenhum.
Não isso é o meu ideal.
Parece-me que é daquela sensação de estar descansado sem a ansiedade de ter tantas outras coisas para fazer, que pode surgir a criação.
Nem quero com isto dizer que aquele poemita escrito em adolescente era grande coisa, ou que se perdeu um grande escritor6 com esta minha longa estadia pelo ensino superior.
Esta sensação da criatividade ser esmagada pela escolaridade parece ser confirmada pela ciência. Ken Robinson (2006), num dos vídeos das palestras TED mais vistos, explora a ideia que é a escolarização que mata a criatividade. O sucesso desse vídeo poderá ser sintoma da escala da ressonância de tal ideia.
Já Simonton, autor de vários estudos longitudinais sobre criatividade, havia encontrado em 1981 uma correlação extraordinária: até ao nível de Bacharelato a correlação com a eminência em criatividade atinge o seu pico, e em graus académicos superiores a criatividade desce a pique. A nível doutoral, a curva desce até a valores inferiores aos da escolaridade secundária. Porquê é que tal acontece?A principal razão apontada é a cristalização dum pensamento académico formalmente rígido (Sawyer, 2006). Tal é contrário à criatividade que prospera perante o pensamento divergente e a aquisição de conhecimento disciplinar díspar, que pode levar à justaposição nova de ideias estabelecidas, resultando num acto de criatividade.
Recentemente, tenho visto e lido pela Internet muita gente a queixar-se de procrastinação, palavra desconhecida dos portugueses até há uns dez anos.
Eu cá pessoalmente passei os meus dez anos a procrastinar obrigações académicas, por isso não me parece mistério nenhum a razão: o que eu queria era não ter de estudar em moldes que não gosto, para fazer trabalhos que não me interessam, para trabalhar no que não quero, só para obter liberdade financeira para não ter obrigações desagradáveis e fazer o que quero. Se só atingir a liberdade financeira na reforma, precisaria de dez anos só para começar a ganhar mestria no que queria fazer. Se lá chegar, e a senescência me deixar. A maior parte dos leitores conhecerá a sensação.
Acho que é assim que vive a maior parte das pessoas com aspirações adiadas. Cercadas pela ditadura da produtividade, na esperança que um dia possam com o seu trabalho comprar a liberdade.
Se há quem diga que um artista não deve depender da arte para viver, eu acho o contrário: um artista não pode depender doutra coisa que não a arte para viver. Quem não se puder sustentar, paciência. Que adie a sua vida para o fim.
Pelos vistos o meu anjo da guarda deve ter mesmo morrido há muito. Matei-o com inscrições em Universidades. Daria um belo poema, mas agora não tenho tempo.
- Mas a ver pelos comentários em pitês que lhe foram deixados, não sinto pena por não me serem dirigidos a mim os elogios. [↩]
- Como todos os portugueses, os que publicam mais do que lêem, devo ter escrito aquilo só por escrever. [↩]
- Não é que tenha reprovado, é só porque tenho feito vários graus. [↩]
- As «disciplinas», para quem não está familiarizado com os termos pós-modernos da reforma de Bolonha. [↩]
- Sobre este assunto, leia um texto meu na página 3 desta edição do JUP. [↩]
- Argumentista, se quiserem mesmo saber. [↩]
