De perto da fonte de água do centro comercial Dolce Vita vinham sons de plástico a bater em metal. Um menino e um idoso jogavam aquele jogo de air hockey. Mete-se uma moeda e durante uns minutos uns furos na mesa criam uma corrente de ar que levanta uma patela que fica assim sem fricção.
A criança de pólo às riscas e o idoso de fato completo e impecável jogavam-no, neto e avô. O idoso era alto. Tinha cabelo branco penteado para trás, óculos prateados, pose antiga. A criança, apesar de inferior na coordenação motora, era mais rápida nos reflexos. Já a inferioridade na destreza do idoso não lhe retirava nenhuma dignidade pois, por se propor jogar aquele jogo demasiado rápido para a sua idade em favor da criança, reavia-a toda.
Passo demasiado depressa pela cena. Por achá-la enternecedora, volto para trás para ver mais, a pretexto de acabar de beber o Red Bull junto do cesto de lixo perto daquela mesa. Olho em redor a ver se aqueles dois teriam mais familiares ali perto, que me pudessem estar a observar a observá-los. Não me pareceu.
Mas logo a criança pega na patela e retira-a da mesa. Ia dirigir-se ao idoso com patela na mão para lhe dizer algo, quando ele lhe interrompe, de voz agressiva e gestos bruscos: «Anda lá rápido, que o tempo está a acabar e acaba a moeda»! Não estou certo das palavras, mas o tom era definitivamente ríspido e rude.
Perdi a vontade de os ver e saí logo dali, desiludido com o fim da ideia dum idoso incondicionalmente simpático e afectuoso que afinal não existia.