Hoje fui ao IKEA comprar caixas de cartão KASSETT, mas não as havia em preto como eu queria.
Então ao sair passo pela zona dos artigos de cama: almofadas, edredões, coisas fofas e aconchegantes para viver o bom do interior das casas.
Umas pessoas passavam pela secção sem olhar para nada, outras olhando as almofadas e as coisas fofas dali mas sem intenção de as comprar, e outras parando para ver melhor as almofadas, escolhendo as que imaginam que mais conforto e aconchego lhes trarão quando forem delas.
Só que para obter a sensação do fofo e agradável daquelas almofadas e edredões, é preciso estar vivo. Eu e aquelas pessoas todas estamos vivos, mas só temporariamente. É um truísmo? É. Mas também o é dizer que as coisas no IKEA ali são baratas e no entanto é o que dizemos se um amigo nosso nos diz precisar de comprar um não-sei-quê para a casa. Sugerimos-lhe ir lá, dando-lhe as razões que ele já conhece. Recordar-lhe, portanto, a sombra daquilo que ele tem em si. Quando ele concorda connosco em ir lá ver se tem o que ele precisa, por exemplo uma almofada, está é a concordar consigo mesmo.
As almofadas só fazem sentido, mesmo sentido, para obter a experiência do fofinho e do conforto bom pela vida dum humano que lhes dê experiência.
Seres humanos que não vemos fizeram aquelas almofadas todas. Não sabemos quem são, quais os seus sonhos e aspirações, o que as preocupa neste preciso momento a cada uma delas — mas as suas experiências subjectivas do real são tão intensas e inquestionáveis como a nossa. A minha. E a sua, caro leitor, que estará de certeza absoluta vivo enquanto lê esta frase sem ter a certeza que eu me encontre no mesmo estado. Posso estar num de dois estados possíveis dentre as mesmas pessoas que fizeram aquelas almofadas, e dentre as pessoas que as compraram, mas não em ambos estados em simultâneo. Uma almofada feita por alguém que já morreu continua contudo a existir, e isso é o mais triste, pois ela continua branca e fofa e apetece dormir numa almofada assim tão fresca e tão por estrear.
As almofadas contêm em si a definição do fofinho que só existe em nós.
E nós somos mais frágeis que as almofadas que só contém um bocadinho de nada do que lhes possamos atribuir na experiência do real.
O todo do fofo está em nós.
A experiência da almofada é, como a própria almofada, fofa.
Toda a vida é fofa. Só faz sentido se for experienciada.
Só experienciando vida haverá vida, haverá o fofo.
Tudo isto é uma banalidade, mas o mais verdadeiro traz sempre consigo a impressão de platitude. Como sempre, a experiência de verdade deve ser sentida como vislumbre privado para se compreender o interior daquilo que qualquer palerma pode pronunciar.
É que Aristóteles, Cícero, Winston Churchill e Nikolai Tesla devem ter escolhido as suas próprias coisas fofas para desfrutarem duma cama fofa. O fofo faz parte da experiência de vida, como fez para Sócrates a experiência da dor das grilhetas — que nos choca precisamente por ser o contrário do fofo — enquanto esperava pelo dia da cicuta1. Foram grandes pessoas, brilhantes, e morreram. Mas também Adolf Hitler tinha coisas fofinhas, o que é horrorizante por ameaçar a pureza das coisas fofas. Não será por acaso que uma das primeiras imagens televisionadas após a morte dum ditador ou um terrorista seja a difusão dos seus aposentos: imaginamo-nos logo a sentir fofura possível do colchão de Bin Laden, avaliando quão bem se poderia dormir naquela cama — e não com aquela consciência.
E quem sabe se as coisas coisas fofas dos hotéis nos parecem menos por saber-se lá que tipo de gente é que terá feito o quê com aquela mesma fofura. Pior: gente que se calhar até já morreu, porque não há nada mesmo pior que dormir numa cama onde gente que lá dormiu está morta.
Mas uma das mais violentas agressões do fofo é nos hospitais. É terrível vermos aqueles que para os outros são grunhidos mas que para nós são tudo, deitados convalescentes, em risco ou fim de vida, com a cabeça sobre uma ou duas almofadas de hospital. É que o horror de nos levantarmos de manhã e podermos ter o contragosto de abandonar a fofura é justamente o maior prazer que um enfermo a fugir-lhe a vida possa desejar, só descoberto na sua impossibilidade.
Os artigos de quarto que lhes sobrevivam não perderão a alma enquanto houver quem lhes reconheça não os seus atributos de fetiche ou de referente, mas as suas qualidades de fofura.
Saí do IKEA sem as caixas que queria, mas trouxe o pensar que atravessei na secção de almofadas e edredões. Tal como os móveis baratos que o IKEA vende, a filosofia barata é tão prática e útil como a mais cara. Faz o mesmo, e mesmo que os móveis não sejam tão robustos como os outros, não faz mal — o mais certo é sobreviverem-nos de qualquer forma, e o pouco para que possam servir fazem sentido para seres humanos vivos.
E isto deixa-me suficientemente satisfeito com o IKEA.
- «Ao penetrarmos no recinto, encontramos Sócrates, que acabava de ser aliviado dos ferros, […] dobrou a perna sobre a coxa e começou a friccioná-la duro com a mão, ao mesmo tempo que dizia: — “Como é extraordinário, senhores, o que os homens denominam prazer, e como se associa admiravelmente com o sofrimento, que passa, aliás, por ser o seu contrário”.» in Fédon, Platão. [↩]