A política é o ópio do povo

1. A política é a religião do povo

Tudo começa com a doutrinação das crianças. Como a religião. Para catequizar os indivíduos, o Estado tem dois instrumentos privilegiados: a escola, e a comunicação social centralizada.

Primeiro, os cidadãos começam muito novinhos a serem educados na catequese obrigatória do Estado, o «sistema de ensino»1. Se a expressão «sistema de ensino» não é assustadora, deveria ser o vocabulário que usam. O que é forçado aos cidadãos em formação são «programas». Sempre que seja preciso controlar o comportamento da sociedade, simples, programam-se os cidadãos injectando uma nova crença no sistema de ensino.

Com a centralização das orientações do ensino, facilmente se podem programar crianças desde a acatar e respeitar a Salazar, até a acatar e respeitar o sistema de política partidária. Como na religião, as crianças crescem em adultos que na sua maioria não terão a oportunidade de criticar aquilo que lhes foi implantado antes da sua capacidade de juízo crítico.

Um dos programas inseridos nas crianças é o dogma de que a democracia representativa é a única forma de democracia. Lembro-me no percurso do meu ensino me ter sido programada essa ideia, desde a minha professora primária até àquelas do secundário. Que o voto é um direito, mas também um dever2. Que dantes não havia direito de voto, e seria uma falta de respeito não irmos agora nós votar.

Depois, durante toda a sua vida, as pessoas são doutrinadas pelos canais estatais de comunicação social, a RTP. Pela sua natureza, um órgão estatal que emita mensagens orientadas para a sua população classifica-se como propaganda. Podem-se encontrar na RTP críticas a este ou àquele partido, mas nunca se difunde crítica à estrutura3. Claro que a promoção de notícias com conteúdo partidário fazem parte da propaganda duma ideia de democracia representativa. Claro que a abstenção é sempre noticiada como algo reprovável. É um órgão de comunicação do Estado.

Por lei, os canais de difusão centrais, públicos ou privados, de rádio ou televisão, têm de transmitir conteúdo noticioso regularmente ao longo do dia. Assim se transformam as antenas de difusão em minaretes de chamada às preces voltadas para São Bento.

Temos até dias sagrados. Os feriados políticos. Defendo a ideia de que o 25 de Abril não deveria ser feriado. Celebrarmos o 25 de Abril é contrário à ideia da liberdade como um direito inalienável pré-político4. O facto dos agentes do Governo celebrarem o 25 de Abril como feriado deveria ser uma pista de que a propaganda é do seu interesse. Com um feriado com o tema da liberdade a ser assim celebrado, causa-se a impressão que deveremos estar gratos aos nossos actuais políticos por não serem ditadores. É como se a liberdade que nos concedem fosse um privilégio. Pois, mas não é. Não temos de celebrar direitos naturais. Não temos de dar graças aos nossos políticos pela liberdade. É um direito nosso, nunca um privilégio.

Na política partidária há também a ideia de sacrifício. O sacrifício é, nas religiões como na cidadania política, uma coisa que os desgraçados praticam com a esperança duma retribuição duma vida melhor mais tarde. Se na religião os fiéis crêem que os seus sacrifícios feitos em Terra virão a ser recompensados numa vida após a morte, na política os eleitores crêem que os seus sacrifícios virão a ser recompensados para os seus filhos, a geração seguinte. Entretanto quem acena ao povo em carros blindados, são o Papa e os políticos — de igual forma.

Mas há um momento em que as pessoas conseguem ver, por breves instantes, as vestes de religiosidade da política partidária: quando vêem os militantes dos outros partidos. Aí denunciam os outros de se submeterem ao culto da personalidade, de terem pensamento dogmático, de pensarem todos em grupo, dos comícios dos outros se assemelharem a religiões carismáticas. E como na própria religião, os partidários não se apercebem que a sua religião é uma religião igual às outras.

2. A política é o futebol do povo

Como na religião, há também na formação das pessoas uma doutrinação familiar. Não é raro ver-se nas lojas de roupa desportiva adultos a comprar equipamento desportivo de criança e de bebé. Caríssimas miniaturas — fatiotas de baptismos e comunhões do futebol — genuínas ao ponto da marca do equipamento, dos logótipos dos patrocinadores dos clubes e da FIFA. Tanto hiperrealismo, quando tudo é irreal: não há bebés a jogar na Liga. Nem há cidadãos na Assembleia da República, só políticos que se referem aos «portugueses» como uns outros, com o tom de voz de quem se refere aos seus súbditos. Tanta fé na fantasia.

Como no futebol, todas as semanas há jogo. Os órgãos de comunicação cobrem a Assembleia da República e os bastidores dos partidos políticos como quem narra um jogo, sobrepondo as falas simples dos políticos com a narração ainda mais simplista do jornalista. Os partidos são os clubes, e os políticos os jogadores e treinadores. Os bastidores dos partidos, os balneários. Assim se estupidifica o estúpido.

Cada adepto, depois de adoptar uma equipa, nunca mais mudará de clube. É mal visto, pelos vistos, mudar de opinião política, como o é mudar de clube — o pensamento político e filosófico na política partidária deve ser estático. Não pode mudar, porque é um dogma. A política partidária é clubismo. Não é filosofia nem humanismo nem outra coisa que não hooliganismo de opiniões.

3. A política é a droga do povo

Se da Roma antiga até à actualidade os políticos precisavam, e patrocinavam até com dinheiro dos impostos, os espectáculos de distracção, dos coliseus aos estádios de futebol, agora é a própria política que distrai as pessoas da política. A política é o circo. Uma droga legalizada.

Os debates televisivos com políticos de partidos opostos, mais os programas de comentário com jornalistas de partidos respectivos, não são para consulta informada de cidadãos preocupados. São para que os seus consumidores vejam o jogo do debate com o olhar vidrado de como se tudo aquilo não se referisse ao real nem tivesse consequências na realidade. Suave lazer de serão de sala com a televisão na SIC Notícias, para distrair dos pensamentos do quotidiano com a vista do quotidiano como visto pela televisão. Um caleidoscópio5 surrealizante, relaxante.

Se os políticos se repetem, os comentadores televisivos profissionais repetem a repetição. E como uma criança cedo descobre, quando se repete uma mesma palavra vezes sem conta, entra-se num estado de consciência alterada que torna a palavra irreal e inacreditável. Deve causar dependência, aparentemente, esse estado oco provocado pelo seguir dos debates políticos na rádio e na televisão. Uma toxicodependência do vazio: os assuntos políticos são relatados, discutidos, e comentados com tanta repetição, que desaparecem.

Quando Karl Marx escreveu que «a religião é o ópio do povo», esqueceu-se de se questionar a si mesmo e ao deslocamento da sua fé para o Estado e a política. Como Estado ou como droga, o socialismo é do mais pesado. Individualidade e liberdade arruinadas pela difusão e dispersão da identidade. Drogas e Estado socialista, desgraças do potencial humano.

É que uma das grandes lástimas do nosso país são os jovens que começam com as drogas leves nas Juventudes partidárias, e que depois nunca mais largam o vício. Começam um dia na brincadeira com os amigos, e anos mais tarde acabam agarrados ao tacho, a arrumar cargos para pagar a dependência.

  1. Mesmo as escolas privadas têm de obedecer a directivas do Estado pelos guias do Ministério da Educação. []
  2. Mas desde quando um direito é um dever? Eu tenho o direito a ter uma carta de condução, mas não o dever. Se me apetecer, vou a pé, ou fico em casa. Essa ideia do «dever cívico» é outra história: como se manipulam os cidadãos não pela coerção, mas pela pressão moralizante dos seus pares. []
  3. Nem nunca se difunde argumentária pela privatização da RTP. Onde está a isenção? []
  4. Os direitos naturais, segundo Kant: vida, liberdade, e propriedade. []
  5. Detesto a palavra «caleidoscópio» para efeitos literários: é tão à pseudointelectual. Mas neste caso é mesmo com um caleidoscópio, mesmo um, com que se compara. []

2 thoughts on “A política é o ópio do povo

  1. Não vejo a liberdade como um direito, mas antes como uma responsabilidade. Não me parece daí que o 25 de Abril seja a celebração de um “privilégio” mas antes a de uma geração com tomates! Mas e depois… a interpretação é de acordo com a “doutrina” de cada um… se bem que doutrinado só seja quem se deixe doutrinar…

    E depois ainda temos a abstenção! Ao menos nos valha essa! Parece que o povo está a consumir menos droga, a assistir a menos futebol e a ter cada vez menos fé em entidades divinas… será que o povo está a ganhar juízo?

  2. O problema da politica é que não é regulamentada, nem controlada, nem transparente e muito menos responsabilizada!

    O problema é que o dinheiro do contribuinte é de todos e não é de ninguém. O problema é que todos sabemos como são feitos os orçamentos, quais as fragilidades do sistema e ninguém tem poder para alterar as regras deste circo tão bem montado…metade vive à custa do sistema e a outra metade anseia por isso!

    Eu imaginava os politicos como gestores e não como oradores e demagogos!

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