Recebi por correio postal, enviado dum amigo meu, uma Schweppes Cream Soda.
E o que é a Schweppes Cream Soda? Ah, meu caro leitor, a Schweppes Cream Soda é A. Melhor. Bebida. De. Sempre.
A Schweppes produz o mais surreal e mais excelente refrigerante1, mas só que apenas para o mercado de Hong Kong e cidades vizinhas do sul da China2. É uma bebida com sabor muito doce mas arredondado, entre o cítrico e o abaunilhado — e descaradamente artificial. A cor é dum amarelo brilhante radioactivo que ilustra muito bem o seu bouquet espantoso de sabores fabricados. Parece até que a cor poderia ter sido escolhida pessoalmente por Matt Groening.
E porque digo que é a melhor bebida? Porque é mais que uma bebida. É toda a minha adolescência. Daí o título deste artigo roubado a Proust3. Eu explico.
Cresci em Macau a beber esta bebida excelente ao gosto dos adolescentes asiáticos. Amigos meus daquele tempo lembram-se de mim constantemente a beber aquilo; faz parte, pelos vistos, da imagem deles minha — sempre a segurar uma lata verde. Não devia fazer lá muito bem, mas eu era adolescente e o organismo tolerava-me os excessos calóricos que hoje não me perdoa.
Quando vim para Portugal, aos 18 anos, juro que das coisas de que mais saudades tinha de Macau era da Schweppes Cream Soda. Nunca me ocorreu que no resto do mundo não se viesse a vender a melhor bebida que a humanidade já inventou. Ainda por cima a marca é a Schweppes, uma multinacional! — claramente eles poderiam muito bem produzir e comercializar a bebida em todos os seus mercados.
Então quase doze anos mais tarde chegam-me a casa pelo correio postal aquelas bebíveis recordações4. Não terem rebentado ao agitarem-se no transporte dos correios foi um milagre5.
Bebi.
Bebi em goles deliberados, como se estivesse a beber champagne de 400€. Mas melhor. Muito melhor6.
E o que veio a seguir foi uma torrente de memórias aleatórias à minha frente. O Liceu de Macau e a tijoleira castanha da cantina, eu a andar a pé sozinho pelas ruas de Macau, uma papelaria pequena perto de minha casa, o minimercado Bem-vindo, umas botas pretas Caterpillar, a fonte de água do lobby do meu prédio, a humidade intensa de Macau a pesar-me no meu cabelo, o som da ventoínha do elevador do meu prédio a ligar ao abrir as portas, as minhas aulas de piano dum professor chinês com guitarras portuguesas a decorarem-lhe a sala, o centro comercial de material informático Fortuna, eu sentado numa aula de Educação Visual a pensar, a Biblioteca de Macau e o campo de relva sintética em frente, a passagem de peões entre o McDonald’s e o Cine-Teatro, o meu Compaq 486 da secretária do meu quarto.
É muito mais que uma bebida. Jonah Lehrer haveria de concordar comigo. E Marcel Proust era bem capaz de me dar um Gosto disto no Facebook. E sem conhecer em primeira mão os particulares do que descrevo, a Cream Soda e a cidade de Macau, todos perceberiam que do olfacto e do paladar se recuperam memórias dum tempo que passou. Um tempo perdido, que pode voltar com uma bebida poção. As neurociências e a minha adolescência, numa lata.
- Gosto mais da palavra «gasosa» do que «refrigerante», que me sugere líquido para carros. Porque é que os portugueses mudaram o substantivo da gasosa para outro pior? [↩]
- Nos EUA e no Reino Unido podem-se encontrar importações em Chinatowns. [↩]
- A bem da verdade, e para não fazer um pseudo-intelectualismo, anuncio já que não li Proust, mas apenas o livro de Jonah Lehrer, Proust Era Um Neurocientista, donde li o excerto da madeleine com chá. [↩]
- Tenho o meu voo para Macau marcado para este ano de 2011, mas isto é algo que, mesmo chegando a meses do meu regresso, tem um valor de nostalgia incalculável. [↩]
- Ou então as bolhas de CO2 não se juntaram para causar mais tensão na superfície do líquido que a sua capacidade de contenção. [↩]
- Se eu tivesse um jacto privado, seria a única bebida do meu frigorífico aéreo. [↩]
Ena! Há quanto tempo não via essa lata verde…
Talvez o meu fraquinho pelas latas de cerveja de gengibre, dessa mesma multinacional, tenha algo de subreptício e apaziguante na senda DA soda abaunilhada…
E — já agora — quanto pagaste pela encomenda?
Pois eu, que sou de uma geração anterior à sua e cresci no Porto a beber água do SMAS, tenho como bebida preferida o tinto do Douro.
Belo texto!