Não faço questão em abater árvores para ler livros. Por isso não consigo ver como possa alguém ser contra livros electrónicos.
Sempre que aparece uma nova tecnologia, manadas de gente discorrem em opiniões conservadoras, previsíveis, e instantaneamente banais.
Com a máquina de escrever, foi um ai jesus que ninguém mais escreve à mão. Com o correio electrónico, que ninguém mais vai enviar cartas longas e cuidadas. Com motores de busca, que ninguém mais vai memorizar nada1. Ai que desgraça, que estamos todos desgraçados, meu Deus!
Sempre que uma tecnologia nova surge, surge com ela uma torrente de opiniões contrárias em defesa do velho. Isto em si já deveria ser tão banal de se dizer que aqueles que defendem o estado antigo deveriam intuir estarem a repetir o disparate anterior.
Conservadorismo assente em medo da mudança, de que a nova tecnologia os deixe desajustados do mundo — quando é essa resistência mesmo que os vai deixar desajustados.
Parece uma racionalização de quem não percebe ainda um novo meio. Quem era contra o correio electrónico era o tipo de pessoa que não tinha ainda Internet em casa e que, em vez de admitir desconhecimento, dizia que preferia a outra coisa antiga. Como se fosse uma escolha, e não o defeito da circunstância.
Até que passa; e depois as pessoas todas enviam emails, e lêem blogs, e usam mensageria instantânea, e essas coisas todas. O mundo não só não acaba, como fica um bocadinho melhor e mais prático.
Doutra forma, não percebo como haja gente que possa fazer questão em livros de papel aos electrónicos, se for para os ler. É que não faço mesmo questão nenhuma que as palavras estejam assentes em polpa de árvores mortas.
Dizem que gostam do papel, e tal. E do cheiro2, e mais não sei quê.
Eu gosto do intelectual do texto.
Não leio para olhar para o material entre as letras, mas para ler. Mania duma minoria, se calhar, isto de ler as palavras, as frases, o texto.
Fetichismo pelo objecto do livro parece sintoma de quem não lê pelo imaterial do seu conteúdo, mas por outra razão qualquer.
Devem ser as mesmas pessoas que dizem que «devoram livros», as que preferem livros em papel. Gente que se lê assim tanto, não percebo como poderão usar o lugar comum da expressão «devorar livros» — não têm no seu repertório nada melhor, depois de tanto ler?
Como não lhes fica nada na memória depois de lerem livros, se é que os lêem, se calhar precisam deles para decorar a casa. Bibelots de papel, para expor às visitas.
E se editoras e livreiros nacionais não começam a disponibilizar livros portugueses no Kindle e no formato ePub perder-se-á ainda mais rapidamente, por quem já compra livros noutras línguas, o hábito de ler coisas em português. O atraso nacional do costume.
Um dia, muito breve, todos lerão em ecrãs electrónicos, e sem ter vergonha de terem resistido aos livros digitais, irão passar logo para o queixume doutra coisa nova qualquer do futuro.
Está na literatura de todos os tempos, esta repetição do conservadorismo.
Deveriam devorar menos árvores, e ler livros com mais atenção.
- Até o Sócrates grego se queixou dos jovens que, com a mania de lerem e escreverem coisas, estariam a perder a arte da memorização. Blá blá blá. [↩]
- WTF? [↩]
Tudo bem, eu não sou apologista dos livros impressos, mas a tecnologia ainda tem que mudar um pouco!
Repara numa coisa: livros electrónicos para o time frame actual (5-10 anos) está OK, mas será que daqui a 100-200 anos os formatos serão suportados? Será que o armazenamento aguenta tanto tempo? (não, segundo o meu professor de Magnetismo..)
Já um livro, se estiver em boas condições de armazenamento, é capaz de durar vários séculos sem qualquer problema!
E há outro problema, que é o da energia consumida por todos esses aparelhos. Um livro, pronto, gasta consideravelmente mais durante o processo de impressão e transporte, mas assim que está em casa, na estante, não necessito de gastar energia absolutamente nenhuma para o consultar, ao invés do que acontece com livros electrónicos (seja no computador ou num Kindle – baterias de lítio? Ups!
). Os ecrãs estão a melhorar, tanto a nível de consumos energéticos (e-Ink está com muito bom aspecto) como de contraste – chama-me ranhoso, mas não consigo ler um livro ou um artigo no computador, tenho mesmo que o imprimir!!
Resumindo e concluindo (se é que há alguma coisa para concluir…): concordo que a solução “clássica” tem inconvenientes, mas enquanto certas arestas não forem limadas do sistema novo, acho que também não se pode excluir o antigo!!
Ora aí estão apreensões muito mais razoáveis
Quanto ao formato: não creio razões para preocupação. Os formatos ePub e outros estão muito bem documentados, e os livros serão distribuídos de forma tão ubíqua — além de serem transpostos para outros suportes que surjam — que ninguém do futuro achará problema em abrir nenhum formato.
Quanto à energia: o cenário actual é que é despesista. Os livros em papel não só gastam muita energia e recursos no processo de impressão. Tens de te lembrar também do que involve o fabrico de papel. E depois o transporte e distribuição dos livros materiais.
A não ser que seja um livro de biblioteca pública, nenhum livro físico será lido tantas vezes e por tantas pessoas que justifique a despesa energética e de recursos para a sua produção material.
Nunca percebi porque é tão mau abater árvores…