Odeio-te, desculpa, mas quero manipular-te

Parece haver um certo tipo de ofensa disfuncional, mas ubíqua, nas relações interpessoais:

A ofensa que inclui, logo na sua instanciação, o pedido de desculpas que se lhe segue.

Pode vir uns tempos após a agressão, na forma explícita declarada, ou então numa atitude positiva e construtiva renovada. Ou pode vir mesmo imediatamente, às vezes num acto contínuo ao abuso, com um «desculpa, não era o que eu queria dizer».

Mas era o que queria dizer, incluindo a própria justificação. A função pragmática da ofensa é que não se encerra na instrução do desprezo, na mera descrição do afecto negativo, mas na criação duma reacção emocional no destinatário.

Há, na psicologia popular, esta ideia de que as relações interpessoais são umas coisas carregadas de emotividade e sentimentalismo, em ciclos telenovelescos de choros e abraços.

Causar dor no receptor, com agressão verbal fria e estratégia, para depois se desculpar num acto de renovado afecto, é a mais cruel forma de sujeitar o destinatário a ter a impressão de estar numa relação.

Porque as relações são expressão de sentimentos, e passar por coisas más, e perdoar, e blá blá blá. A criação dum evento de valência emocional negativa é uma armadilha táctica, prendendo o alvo num meio dum ciclo incompleto enquanto não vierem as resoluções.

Que depois descambarão noutro estado de desequilíbrio qualquer logo a seguir.

O ofensor ofende, e ainda ganha a ilusão do direito da jogada seguinte.

Engenharia social intuitiva no seu pior.

Não tem de ser assim.

Identificar e reconhecer o padrão disfuncional é capacitar-se para se defender da manipulação duma relação, de amizade às familiares, em desequilíbrio.

Espero que me perdoem a ofensa, mas relações assim não valem a pena.

Podemos falar disto? Temos de falar.

2 thoughts on “Odeio-te, desculpa, mas quero manipular-te

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