Se o método científico é uma forma de construir conhecimento que bem descreva a realidade, o método das artes dramáticas não o é com menos rigor e eficácia.
Das várias ciências, um conjunto propõe-se descrever a natureza humana através do método científico: as ciências sociais. Psicologia e sociologia são aquelas mais visíveis da cultura contemporânea, mas há outras.
No entanto, as ciências sociais falham. Falham, porque concluem o que outras áreas do saber há muito que têm como conhecimento. E falham, porque o método científico aplicado à realidade humana é falível, mole, de tantas as variáveis. De tão mole que é, que as ciências sociais se encontram à mercê da ideologia dos cientistas investigadores — que a ocultam assim com as vestes da cientificidade da sua ciência1—, confirmando-se sempre as suas hipóteses de investigação, sem as hipóteses alternativas tratadas como na dialéctica dramática2, num sinal de imaturidade daquelas ciências.
Mas nós já temos, com um avanço de milénios, descrições rigorosas do que é ser humano, pela pena das artes mais científicas que todas as ciências sociais contemporâneas: as artes dramáticas e da literatura3.
Vejamos o método do autor dramático:
O escritor dramático observa o mundo. Esta é a primeira fase do seu método artístico.
Depois, levanta hipóteses. O desenho experimental é a sua obra dramática.
A experimentação, no fim, é a publicação ou a exibição da obra dramática.
Quando os leitores ou espectadores duma obra dramática lêem ou assistem à expressão da visão do seu autor, confrontam aquelas descrições do humano com a sua experiência subjectiva e empírica. Quando ao experimentar a obra sentem a profunda sensação de verdade, de ser assim mesmo que as pessoas são, então o autor dramático fez muito mais que qualquer cientista social contemporâneo.
É que se nas ciências sociais actuais um cientista investigador retira uma parcela muito estreita e pequena do que é o ser humano, reduzindo-a a uma ou duas variáveis experimentais destituídas da sua realidade ambiental, no drama o humano é descrito no seu todo contextual.
Para uma descrição duma personagem, uma pessoa diegética, o autor tem de incluir todas as variáveis ambientais e subjectivas que importem para a narrativa. Contar tudo o que é necessário, e não mais que isso, é uma das expressões da arte do escritor dramático.
Quando, então, o espectador sente a verdade do drama, o autor fez uma descrição que corresponde à realidade humana.
As reacções do público são os resultados da prova do método dramático.
Seja um drama contemporâneo urbano, um histórico ou filme de época, fantasia, ou ficção científica, o que os espectadores usam como teste de verosimilhança emocional é a consideração da obra como uma representação realista dum ser humano naquelas condições.
O teste de verdade da descrição humana é feito em confronto com a observação e introspecção de cada espectador, eles próprios humanos e peritos de si mesmos como humanos. É a mais democrática forma de produzir conhecimento que verse sobre a natureza humana, incluir todos os humanos como revisores de pares da sua representação.
Na presença duma descrição completa e essencial4 da existência humana o autor e os seus espectadores partilham dum novo entendimento.
Creio que um dos prazeres da literatura e das artes dramáticas é justamente o de constatar a boa descrição da manifestação dos processos psicológicos das personagens. O outro grande prazer, o final, é a realização de que aquele mundo diegético foi fabricado por um humano, e que nós, como espectadores e leitores, podemos partilhar daquela captura destilada da humanidade.
Do caos da experiência humana, no final duma boa obra dramática ou de literatura há uma nova definição contigente da realidade humana — e nunca menos que isso, como num paper científico de psicologia que mostre um processo discreto. Com a brevidade duma obra, os leitores e espectadores podem no fim melhor operacionalizar e dar sentido à complexidade do objecto da subjectividade universal.
Se a ciência é a busca metódica da descrição da realidade, então o drama e a literatura são a experiência actual da verdade humana.
- É como aqueles humoristas portugueses que estão sempre a recordar os seus espectadores que estão a ver um programa «de humor». Se tivessem mesmo graça, não precisavam de nos dizer tantas vezes que o que estamos a ver é «humorismo». [↩]
- cf. The Art of the Dramatic Writing, Lajos Egri. [↩]
- Discorro sobretudo a pensar nas artes dramáticas, com ênfase no cinema, mas estende-se também o que descrevo à literatura. [↩]
- cf. Poética, Aristóteles. [↩]
Perfeito!
Perfeição !