Um casal de recém namorados, de cerca de quarenta anos, está frente a frente, de mãos dadas, às portas das casas de banho do centro comercial. Olham-se nos olhos. Chegou o momento de se separarem, cada um para o seu lado, um para o WC dos homens, a outra para o das mulheres. Beijam-se.
Beijam-se com a fresca felicidade de serem casal, como se a experiência para eles fosse mágica e nova. Beijam-se porque agora sim vivem o romantismo, pensam cada um, pela primeira e pela última vez. A despedida é demorada. A despedida é para irem à casa de banho. Beijam o mesmo beijo prolongado.
Enquanto isso, sons de secador de mãos e descargas de autoclismos fazem a banda sonora. Em redor deles contornam pessoas de bexigas, pensos higiénicos, e intestinos, tratados e para tratar, de acordo com a direcção que fazem. Um idoso sai da casa de banho dos homens de volta para o centro comercial, já em público, ainda a fechar a braguilha. Isto não é o cenário do filme Moulin Rouge, mas o brilho feliz dos olhos dela é como se fosse.
Então o momento de se separarem, por isso agora uma cara mais séria, dum solene «até já». A separação das mãos, de dedos esticados a tentar prolongar o despegar. E vão cada um para seu lado, num pesar do que deixaram atrás. Mas não faz mal, porque a ausência cultiva a saudade:
Quando estiverem a mictar para latrinas públicas mal-cheirosas, pensarão um no outro.
E isto, suponho, deve ser aquilo que as pessoas chamam de Amor.