Quase todo de fora dum saco de plástico do Minipreço, jaz tombado no asfalto uma embalagem de pão de forma Panrico.
Dentro daquele saco de supermercado há outras compras: duas lâmpadas fluorescentes, Listerine, e um desodorizante Sanex. O próprio saco foi uma compra, custou dois cêntimos. E ninguém agora irá comer aquele pão de forma.
Será um dos enfermeiros do INEM ou um polícia quem irá recolher o pão de forma para dentro do saco, para junto das outras compras, e entregá-lo à família do seu breve dono, juntamente com os seus outros pertences.
Aquele pão de forma por agora está ali, caído, a expirar-lhe o sabor a pão aquecido uma última vez pelo alcatrão quente, sem que ninguém o aprecie. É ainda mais trágico do que se fosse o próprio pão, ele próprio, a ter saído fora do supermercado e atravessado a estrada sem olhar para o lado donde descia solto na sua faixa um autocarro da cidade.
O pão de forma não tem sequer culpa da sua situação, nem poderia ter; é pão. Inocente, por omissão.
Tanta gente na rua e no autocarro, que abre agora as portas para que toda a gente saia, e todos procuram o melhor lugar para olhar o cliente morto. É o que importa da cena, para cada uma das pessoas, pois o que cada uma quer é aproveitar a oportunidade para se imaginar no corpo e na situação elas mesmas, sem lhes ocorrer ocupar o lugar e a importância dum pão fatiado.
Morrerá então assim também o Panrico, por ninguém vir a honrar-lhe o seu fabrico, comendo-o. Irá morrer porque ninguém quererá comer o pão duma pessoa que morreu — mesmo que tivesse morrido, justamente, para o comprar. Só que ninguém em tempo útil da vida do pão irá fazer este raciocínio, nunca na sua vida nem na de ninguém, para cumprir a intenção da compra. Cliente e pão, expirados em vão.
São as coisas mais tristes, as coisas compradas de fresco por alguém roubado da vida delas a quente.
RIP
Este texto emocionou-me.