Quis o destino que eu não morresse em 1864

Quis o destino que eu não morresse em 1864, dum acidente de que não me recordo, e que em vez da velhice se viesse a descobrir em mim uns mistérios de imortalidade.

Enquanto não descobria pelos meus próprios meios as causas da minha perpetuidade, fui vivendo discreto várias vidas discretas. Cada vez mais apagadas, à medida que as obrigações de identificação da civilização me apanhavam. Hoje, durmo numa caixa de cartão, porque quem sem abrigo também sem nome porque sem alma. Eu sempre soube disso, porque é algo que nunca mudou com o tempo, mas só agora lhe vivi a verdade.

Pousado na minha mesa do cibercafé, tenho comigo o meu único pertence que guardei todas estas épocas. A minha bengala toda lascada, toda velha. Já não tem o punho em prata, quando a usei para o dia do meu mais importante sacramento—

Mas isso não interessa. Agora não me consigo recordar, sequer, do seu rosto. E esse é o meu problema.

Em 2011 vejo finalmente as minhas mãos a enrugar. Elas, que eram tão lisas, as mãos dum fidalgo de vinte e sete anos. Estão tão velhas, as minhas mãos, e a enrugar enquanto escrevo. Num repente, está-se-me a tomar a idade toda de todos os tempos que me esqueceram. Agora sou eu quem se está a apagar.

Há uma aragem fria, a memória a fugir-me com ela. Enquanto estou sentado, agora mesmo, sinto chegar-se ao fim um pavio que nunca havia reparado que havia. Tenho de acabar este testemunho mais depressa que o fim, enquanto tenho em mim os elementos donde recupero as minhas lembranças.

Pela liberdade que quis, fugi da tentação de me apresentar ao inquérito do exército do positivismo. Depois fui-me esquecendo de querer averiguar as causas da minha permanência. Ébrio de imortalidade, passeei-me com os flâneurs dos tempos que passaram.

Agora custa-me lembrar-me do que se passou, por que passei. Sem nenhum ajuntamento coerente de partículas naturais onde depositar as minhas lembranças, fico sem mim, sem tempo para saber se eu estaria nas lembranças, ou na coisa que as sustentam.

Já não verei o fim dos estabelecimentos de Internet, estes… cibercafés, que creio estarem a acabar, como vi o fim dos telégrafos e das cabinas telefónicas, e doutras cousas que não me lembro agora.

Não verei mais fins de coisas que nem sequer verei começar.

Nem verei o meu fim, porque se me esquece agora aquilo que fui, e portanto aquilo que sou é um resto de agora, um agora sem dantes, e sem dantes, o agora é agora outro eu, já o outro sumido, ou órfão do agora, e daqui a pouco todo nada e nenhum.

Apelo à memória daqueles que me possam ler, e que em segredo possam estar a viver mais do que ditam as leis das causas normais, que se mostrem às ciências dos homens. Às ciências, não aos homens, que eles não sabem nada do natural.

É que um dia falhar-vos-á a negligência da natureza que, lembrando-se de vós, vos tomará logo de esquecimento de todas as coisas que viveram, e num ápice vos atiçarão de degradação ao degredo do nada.

Quanto tempo se passou a escrever este… apelo, não sei. Parece muito; agora tremem-me muito as mãos, e toda a minha vida parece pouca. Acho que me está a tomar a Morte, que me diz que não vivi nada, que toda a minha memória é uma fantasia habitual, diz ela, ouvem-na também? Que a loucura é que me faz crer em memórias duma vida impossível por demais que o que a razão da orgânica comum nos deixaria, tão falsas como a impressão duma vida real. Não sei se é a ela que lhe falha a eloquência, ou a mim a transcrição.

Estais a ouvi-la, também? Não queria que tivesses de crer em mim. Ela, a Morte que é uma velha, que me diz estar louco mas mais me parece a mim, ela, louca.

Que as memórias, continua a velha, não se referem a coisa nenhuma que haja ou exista, que ninguém nunca esteve, nunca, mesmo, nunca, vivo.

Nem memórias nem matéria, nem memórias da matéria, nem na matéria, alguma vez, sequer—

Quis o destino que, no ano de Deus de dous mil e onze, se descobrisse em mim uns mistérios de lucidez.

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