Partir é morrer aqui. É olhar em redor e ver os pedaços de mim incrustados nas coisas que eram minhas porque as via sempre. Os nadas do quotidiano, subitamente visíveis: ei-los que te tinham, e tu neles, porque eras neles. O amigo que morava ali mesmo ao lado, tão perto, mas que nunca o visitava. Agora, mesmo sem sair, só por partir está já longe, ele, e muito mais perto por tal descoberto.
As coisas, todas as coisas, as coisas arrumadas, as coisas perfeitamente alinhadas, as coisas que usava, as coisas que decoravam, as coisas por decidir o que lhes fazer, as coisas que estavam — as coisas que estão, todas, a verem-me abandoná-las e eu delas, porque era delas, minhas, a deixar-me. Tão detalhe e tantos anos que as coisas mostram, a bordadura duma alma.
Pessoas que se despedem com um «adeus» que parece a sério, porque é a sério, porque quando dizem que o tempo passa depressa como se não fosse grave, é na verdade grave porque o tempo passa depressa, e com ele as pessoas. E cada minuto, cada segundo — sei lá qual é a unidade de tempo mais granular para a saudade — passado sem alguém é nessa igual métrica uma morte daqui, uma morte de si. Em si, essa morte, porque os outros em nós.
É por isto é que as pessoas choram.
Choram porque sentem a mortalidade— não, vêem a mortalidade da partida.
Partir é assistir ao mundo como ele o é quando morremos.
Ao partir, vemos as coisas que nos restam, o luto dos outros e, para grande tragédia, a terrível saudade de nós que deixamos.
É morrer, aqui.
E ir com esperança num mundo melhor.