À espera do sotor

Em Portugal, sempre aqueles nasais «as consultas estão atrasadas». Sempre até os «o sotor ainda não chegou». Sempre. Como se não tivéssemos marcado. Como se não tivéssemos de ir ao médico. Logo à chegada, as recepcionistas aplicam-nos a excomunhão só por termos pecado no pensamento antes de chegar ao balcão: somos repreendidos pela expectativa assumida, não fôssemos atrevermo-nos à impaciência, de sermos atendidos na hora acordada. «Isto hoje está muito atrasado, vai ter de esperar». O hoje é todos os dias, sistematicamente. Toda a gente sabe. Mas ninguém ousa a heresia de não crer que o clero não é moral. Então folheiam-se revistas de viagens velhas com lugares onde os médicos foram com o nosso dinheiro e a nossa desgraça de saúde. Para passar o tempo, deles, passamos o nosso.

Morre-se de tempo perdido, em Portugal, à espera do sotor.

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