O meu vizinho que faleceu mal

Acabo de saber que o meu vizinho de baixo, o Sr. Figueiredo, faleceu. Mas faleceu mal, por minha culpa.

O Sr. Figueiredo tinha a cara do que seria o pai do Calvin, do Calvin and Hobbes, com mais uns anos. Era aposentado, mas alto, jovial, com um bigode raso grisalho. Afável.

(Sei que há pessoas que se dão mal com os seus vizinhos, mas não eu, e não ninguém neste prédio: são todos bons vizinhos. Sempre achei que o Sr. Figueiredo, morando debaixo de mim, tivesse razões de queixa minhas, mas ele nunca foi capaz de dizer nada, mesmo quando eu lhe rogava para que me dissesse se eu fizesse ruído a horas tardias — garantia-me sempre que não).

No Natal passado, escrevi-lhe uma mensagem de Natal num minúsculo cartão da UNICEF, para lhe deixar na caixa do correio quando eu fosse sair para Lisboa, para passar o meu Natal com a minha irmã.

Feliz Natal
do vizinho
do 2º andar
- Ricardo

Mas com a pressa do dia de saída, só me lembrei do postal quando já estava no carro. Não voltei para trás, achando que era um mero pormenor, estas felicitações, que pouca diferença faria no seu dia de Natal, e que, afinal, sempre poderia guardar o postal e dar-lho no ano seguinte.

Não haverá ano seguinte.

Não lhe deixei o postal na sua caixa de correio, e por isso o Sr. Figueiredo faleceu mal. Ficou incompleto. Não — eu fiquei incompleto.

Ainda não sei exactamente quando e de que morreu. Ia jurar que ainda há pouco o vi na garagem a sair do carro. Os nossos carros estavam em lugares afastados, e, não sendo eu expansivo nestas situações, não acenei com o braço para o cumprimentar.

Mal conheci o Sr. Figueiredo, na verdade. Nunca consegui construir uma conversa que se descolasse da circunstância e entrasse por aí além. Mas se calhar não era preciso.

Sem o conhecer, garante-me a sua fisionomia desenhada pelo Bill Waterson, e todas as outras pistas, que era boa pessoa. O mundo tem uma forma de fazer as formas das coisas expressarem o seu interior.

Não lhe tendo deixado o postal, não lhe maximizei a utilidade, não maximizei a felicidade, ainda que mínima a diferença, porque o máximo nestas coisas está sempre longe do tempo possível. O tempo. Quem sabe, se lhe tivesse deixado o postal, a história do cosmos se alterasse, e ainda hoje o Sr. Figueiredo estivesse vivo. Quem sabe a diferença que faria. O efeito borboleta. Ondas de causalidade. Ou apenas uma atenção, em vida, do vizinho de cima.

Sem o Sr. Figueiredo, o meu prédio ficou sem um andar. A minha casa, mais pobre.

Lá fora, os carros continuam a passar na rua, indiferentes.

Mas o resto do cosmos sabe que falta uma pessoa.

Pelo menos, eu sei.

A emergência duma cultura humana global

A propósito do fenómeno de emergência, a inteligência que surge quando em colectividade — das formigas individuais às colónias, dos neurónios individuais à mente —, mais que a soma das partes, poder-se-ia pensar sobre cada humano individual como também ele um agente duma inteligência da comunidade.

Agora, a constituição dessa comunidade é o que me parece como aquilo que cada agente decide conectar-se, mais os outros que fizeram o mesmo.

Só que vejo muita gente do mundo industrializado a saber apenas uma língua estrangeira, o inglês, e a ligar-se apenas a uma fonte: a dos EUA. Seja no consumo de cultura, de notícias, de mundividência em geral, os agentes do mundo industrial obtêm todos os mesmos estímulos do mesmo sítio.

Ao obter os mesmos estímulos, ao ligarem-se apenas a uma banda estreita da cultura humana, os humanos perdem o potencial não só de beneficiarem o todo, como de serem beneficiados pelo global. Afinal de contas, ao termos todos os mesmos estímulos, a mesma matéria prima, é natural que a nossa criatividade, a da subcultura, se estagne, resultando na criação de objectos idênticos por parte dos seus agentes.

E se, como neurónios com mais sinapses, cada pessoa se ligasse a outras fontes da cultura humana1? E se agentes isolados, neurónios por ligar, como gerações inteiras de africanos, sul-americanos, e por todo o resto do globo neglicenciado — que Negroponte quer ligar com o seu projecto One Laptop Per Child — participassem na construção da Alexandria colectiva, da grande Agora, da Internet?

Isso sim, seria a emergência duma cultura humana global.

Não seríamos, todos, beneficiários?

  1. Porque não, em vez do New York Times, que toda a gente lê, o South China Morning Post? Porque não, também, começar a aprender aquela outra língua que sempre quis aprender? []

Toxicidade geral

O mundo é tóxico, imundo, prolixo em lixo, de ócio ocidental, ópio mundial, todo contaminado, todo minado.

São tóxicas as cidades, são tóxicas as pessoas. Tudo o que é humano, é tóxico.

São tóssicas as pessoas que tossem para o punho fechado, que segura um microfone invisível de micróbios, para anunciar bem, ahem, tomem lá disto, que é tóxico.

São tóchicos os Tó Chicos, chico-espertos que não sabem o que são xi-corações, feitos de xisto e chistes, frios e fáceis, fatelas e foleiros.

São tócsicos os toques, javardos, parvos, de pessoas-táxi que se provam em privado, saem intoxicadas, e depois privam que provaram estamina estouvada, e se contaminam, contaminam outros, contaminam contos de fadas com contas de fodas.

As cidades, todas Tóxio, todas toksycidade. De Kyoto também um coto. Lisboa dantes pelos vistos cheirava bem, cheirava a Goa, mas o fado foi sal e foi azar de ter sido selo de Salazar, e foi-se a Amália, o martelo e a foice. Agora amai-a, a cidade malograda, a Kapital onde é tóxico o techno e o ecstasy, junto texasy, porque em Houston é igual, ¿sexo así?, tudo igual no mundo tóxico, e claro que aqui é assim.

Cidades num mundo de plástico como o sorriso das pessoas, tóxicos os fumos e os flatos, em sentido lato, de facto, e por cima do mundo, por cima da camada de jactos jactantes, eixos taxativos de gente-sémen, há satélites — satélites que troçam, que trocam toxinas da Catrina, de mão em mão, em directo da Praça do Marquês do Pombal para o terceiro mundo — a contar do Sol.

Face ao presente exposto, senhor presidente da assembleia de assentos e emblemas, a nossa recomendação é de lavar abundantemente (Génesis 7:12) os olhos de que quem não enxerga, e que, em caso de dúvida ou persistência dos sintomas, se verifique a toma ou se consulte um tomo, o que ocorrer primeiro, que é como quem diz o que primeiro vier à cabeça. Como isto.

Publique-se.

A teologia da diacrítica

Como designar aquele que não crê ser possível conhecer a própria possibilidade da existência de Deus?

Anagnóstico? Não pode ser, pois a palavra é relativa a anagnosta.

A-agnóstico? Não dá, porque não se fazem prefixos de negação por justaposição hifenizada.

Aägnóstico? Sim, isto é que era. Seria tão giro que a língua portuguesa não só não tivesse perdido o trema (que se usava para assinalar a pronúncia de vogais normalmente mudas1), como tivesse alargado o seu uso para todas as vogais que, sendo justapostas, se tomam e pronunciam como independentes2.

  1. E.g., «queijo» e «cinqüenta». []
  2. Até a revista New Yorker, que tem ortografia própria, assim o faz em inglês, para palavras como «coöperation» []

Se o 112 fosse uma central de atendimento comercial

Bem-vindo ao serviço de apoio do número nacional de emergência, 112. Por favor seleccione uma das seguintes opções. Para emergências médicas e de saúde, prima, 1. Para emergências de segurança pública e pessoal, prima, 2. Para reportar um acidente ou sinistro, prima, 3. Para outros assuntos ou para falar com um operador de atendimento ao cliente, prima 0.

*Biip*

Você seleccionou, emergência. Médica. E de. Saúde.

Ta na na na naaa, na na naaa, ta na na naa— A sua chamada é importante para nós, por favor aguarde. Será atendido assim que possível. Ta na na na naaa, na na naaa, ta na na naa— A sua chamada é importante para nós, por favor aguarde. Será atendido assim que.

— 112 emergência nacional boa tarde?

— Está, olhe, é para pedir uma ambulância para o meu avô que—

— Concerteza. Estou a ter o prazer de falar com?

— Bláblá Bláblálves.

— Como está, senhor Bláblá Bláblálves, passou bem?

— Hã, bem, obrigado. Ouça, eu estou a precisar duma ambulância para—

— Muito bem, precisa duma ambulância. Vou então pedir que me dê o PIN original do seu cartão de cidadão.

— Quê? Eu sei lá do meu PIN. Isto é mesmo urgente. Não pode…?

— Sem o PIN original do cartão de cidadão, vamos então ter de proceder à autenticação doutra forma. Vou então pedir que me indique o seu número de boletim das vacinas.

— Só um momento.

— Concerteza, senhor Bláblá Bláblálves.

— Pronto. É o nove dois, um um cinco, sete três, sete nove zero.

— Muito obrigado. Vou agora pedir que me indique a morada do hospital onde nasceu.

— É a Rua de Bláblábláblá, dezanove. Vila de Bláblá. Santa Bláblára.

— Muito obrigado. E agora vou pedir que me indique os três últimos algarismos de π.

— São o um, o zero, e o três.

— Muito obrigado. Só um momento, por favor, enquanto autenticamos estes dados. …, …, … Muito obrigado por ter esperado. Vamos então enviar uma ambulância para o senhor Bláblá Bláblálves.

— Não, não é para mim. É para o meu avô que acho que teve um enfarte, que está ali caído no chão.

— Peço imensa desculpa, mas os pedidos para o 112 têm de ser efectuados pelo próprio. Para fazer esse pedido, terá de desligar e ter o próprio utente a requisitar. Há mais alguma coisa em que eu possa ser útil?

— Olhe, não, deixe estar.

— Então em meu nome e do Instituto Nacional de Emergência, desejamos-lhe a continuação duma boa tarde.

O lencinho da Inês

Naquela Primavera, quase que tive o meu primeiro beijo.

Estava no 5º ano. A minha mãe mandava-me ir, à tarde, depois da escola, para a casa da D. Emília, para estudar. Ou, como às vezes dizia, para ter explicações. A D. Emília era amiga da minha mãe, vizinha dali perto, e mãe da Inês.

Aquele passeio entre a escola e a casa da Inês era o meu melhor bocado. Detestava a escola, e detestava ter de estudar depois, mas o passeio – o passeio, era algo espiritual. Passava pela minha própria casa, sem entrar, e metia-me a pé pelas bermas de campos agrícolas, directo a casa dela. Passava por um ribeiro que borbulhava a fresco, sempre o som familiar do ribeiro, e pisava ervas de verde vivo de Março com as minhas botas à prova de água. Quando chegava à porta da casa da Inês, dava patadas com força no chão de cimento para largar nacos de terra das botas, e limpava com muita força as solas no tapete de plástico. O som da sola a raspar no tapete de plástico fazia-me arrepiar a espinha, mas eu fazia questão em mostrar que me esforçava por entrar limpo (eu tinha de ser o bom rapazinho que a minha mãe queria; pequeno embaixador, perfeita representação do que a minha mãe queria que as outras pessoas pensassem de mim).

Foi a Inês que me abriu a porta.

— Olá.
— Olá.
— Entra, a minha mãe está a chegar.

Fiz a rotina do costume. Fui para o meu lugar na mesa da sala da D. Emília, subi a cadeira, e levei para cima da mesa a minha mochila. Apertei os lados dos fechos de plástico, um de cada vez, para os destrancar. De dentro, veio o habitual cheiro forte a pão que a minha mãe me fazia para eu lanchar na escola mas que eu nunca comia (para não me passar por totó no ciclo, comprava antes uns Mars na cantina. Depois, com remorsos, custava-me deitar fora os pães da minha mãe, e por isso é que a minha mochila cheirava sempre tanto a pão e tanto a esquisito).

Alinhei em cima da toalha, à minha frente: o meu porta-lápis, a minha capa A4 com separadores (um por disciplina), e os manuais de inglês e francês. A especialidade da D. Emília era ajudar com línguas, sobretudo o francês.

Pronto.

Agora estava à espera (porque é que estava à espera?).

Senti a pressão do silêncio. O relógio de pêndulo parecia que fazia um estalido de língua, impaciente, uma vez por segundo (mais ou menos). De resto, só o som de roupa a mexer, se eu me mexesse. A Inês estava na cadeira dela, a olhar para as pontas dos seus dedos a tocarem-se. Eu tentava não me mexer.

— A minha mãe não está.

Tomei aquela declaração como licença para começar sem a D. Emília, para me ir adiantando nos deveres. Agora já havia som, o som de cadernos, folhas, páginas a virar, lápis e esferográficas a serem baralhadas no porta-lápis para escolher algo com que escrever. O mundo estava normal, outra vez. Folheei até à página da aula de hoje do caderno de francês, e comecei a olhar para os espaços do exercício que tinha de levar preenchidos para a próxima aula: Tu ______ (être) très jolie.

— Foi ao supermercado. Disse que vem já.

Escrevo, com o meu lápis mal afiado (não queria pedir agora à Inês se tinha um aguça, e nem sabia porquê), no caderno, muito de leve (para o caso de ser preciso apagar depois), est. A D. Emília haveria de gostar de ver os meus exercícios já feitos quando chegar, e se tivesse poucos erros até poderia ir mais cedo para casa.

Com as duas mãos, a Inês empurra, com as mãos sobre a toalha da mesa, para a minha direcção, um ovo de plástico amarelo.

— Toma. É para ti.

Era a bola amarela do interior dum ovo Kinder Surpresa. Para mim?, não pergunto. Abro. O som hermético, característico, das bolas amarelas dos ovos Kinder a abrir. Só que ali dentro, em vez dum brinde de plástico, um tecido. Tiro-o. É um lencinho, pequenino, um quadrado do tamanho duma base de copos. Estendo-o. É branco, de tecido muito fino, com um passarinho bordado. O passarinho é cor-de-rosa, e azul-bebé no bico e nas patas. Dito assim, pode parecer estranho, uma versão daltónica dum pintainho, mas hoje vejo, na memória que tenho dele, que era um passarinho muito querido.

Enquanto abria o ovo, estendia o lenço, e tentava perceber o passarinho, a Inês tinha vindo sentar-se na cadeira ao meu lado, à minha esquerda. Nem a vi chegar.

— Gostas?

De repente, o meu coração começou a bater muito forte. Queria sair dali. Não conseguia aguentar aquilo. Aquilo tudo. Tirei os olhos dela, com medo, e fixei-me no passarinho. Olhei para o lenço com tanta força que em vez dum passarinho, querido, via apenas linhas de costura. Via, de tanta força, que aquilo era apenas um objecto, que alguém costurou pontos num tecido, e que o tecido, ele próprio, havia sido feito numa fábrica qualquer, por alguém ou por uma máquina. Era um objecto físico do mundo material. Só isso.

Tinha conseguido evitar o meu primeiro enfarte cardíaco da minha vida.

E então ela aproxima-se ainda mais de mim. A cabeça dela começou a chegar-se perto da minha, e pareceu que sentia um campo eléctrico qualquer. Olhei para ela, a tentar perceber se o que ela estaria a pensar fazer era o que eu estava a pensar, mas isso só fez pior: as nossas caras ficaram de frente uma para a outra, perfeitamente alinhadas. Ela pára um bocadinho, para eu me habituar à proximidade, à ideia. O meu coração, ai, estava outra vez pior que o pêndulo irregular do relógio de sala, só que multiplicado por infinitos.

Eu queria implodir. Eu não queria aquilo. Eu não queria que a minha mãe soubesse do que estava a acontecer, e a minha mãe iria saber, porque de certeza absoluta que a Nossa Senhora de Fátima estaria a ver-me agora e lhe iria dizer depois, à noite, quando a minha mãe rezasse e falasse com ela.

A Inês retoma, hesita. Hesita. Eu era uma estátua morta, branca, fria.

Ouvi (com muita força) um carro. Sim, era o som do carro da D. Emília a chegar. O som dos pneus a trilhar brita, a minha salvação! Eu estava de costas para a janela da sala, mas é como se eu estivesse a ver o Peugeot branco da D. Emília a parar em frente da casa. O meu alívio.

— A tua mãe…

A Inês deixa cair os ombros e volta para o seu lugar, desconsolada. Eu pego no lencinho e nas duas metades amarelas do ovo de plástico, e atiro-as para dentro da mochila, para apagar dali os vestígios daquele pecado.

Passei o resto daquela hora a dar erros de francês e de inglês.

— Tu hoje estás desconcentrado. Passou-se alguma coisa na escola?

Eu tentava não pensar no que se tinha passado, para evitar que o meu pensamento fosse lido pela D. Emília. Com adultos, era preciso ter sempre cuidado com os pensamentos: eles poderiam ver; era preciso pensar noutras coisas, com muita força (sempre com muita força), na sua presença.

Quando cheguei a casa, disse à minha mãe que não queria mais explicações. Que eu me iria esforçar para estudar mais em casa. Que iria tirar boas notas, de certeza. Eu não precisava mais de explicações.

— Está tudo bem contigo? Aconteceu-te alguma coisa?

Parecia que todos os adultos conseguiam ler pensamentos. Eu tinha de ser melhor a pensar noutras coisas enquanto falava com adultos. Concentrei-me nos Thundercats.

— Está. Só que quero estudar no meu quarto. Não preciso da D. Emília. Já sou crescido, mãe.

Mas não era crescido.

Escondi o lencinho atrás do livros das minhas estantes, livros inocentes de criança, até pensar como me desfazer dele antes que a minha mãe o visse. Acabei por o deitar ao lixo, um dia, juntamente com uns pães cheios de bolor.

A D. Emília foi colocada noutra terra qualquer, logo em Setembro daquele ano; nunca mais vi a Inês. Já mal me lembro da cara dela, só do cabelo (era preto) e que andava a aprender violino (nunca a ouvi tocar).

Hoje, a casa da D. Emília e da Inês pertence a outra pessoa qualquer, que pôs uma antena parabólica da Meo no telhado. Os campos em redor da casa já não existem; a casa está agora no meio de duas urbanizações. E a terra da minha infância já não é uma aldeia, é quase uma cidade — cresceu.

Naquela Primavera, eu não desabrochei. Não cresci.

Fui semente que não germinou.

Naquela Primavera, eu não tive o meu primeiro beijo.

As coisas que são de quem são

Há um certo investimento nas coisas, certas coisas, certos investimentos, emocionais, intelectuais, que as fazem, no fim, parte de alguém. São as coisas que mostram quem são de quem elas são, quem eram de quem elas eram. Um rato Logitech, azul e cinza, velho. Um afiador de lápis da Staedtler. O suporte de livros de madeira comprado no El Corte Inglés. Coisas, coisas em redor da pessoa — mesmo quando ela não está lá. Mesmo quando o dono das coisas não está, estão as coisas, e elas estão de tal forma e com tanto detalhe daquele a quem pertencem, que as coisas quase que são. Em alma, em espírito, em vida, as coisas. Quase que são a pessoa a quem pertencem.

A esperança é uma faca de dois gumes

A esperança é aquilo que nos alenta. A esperança é aquilo que nos faz sofrer.

Enquanto há vida, há esperança. Aquele que vive de esperança, morre de fome. A esperança é a última a morrer. A esperança é o pão dos pobres. Esperança não enche pança.

(E quem espera, sempre alcança, como quem espera, desespera).

A esperança é uma faca de dois gumes. Um pau de dois bicos. É remédio e é veneno.

A esperança tanto dá para um lado, como para o outro. Dá para os dois lados.

A esperança é uma bela treta.