Se o 112 fosse uma central de atendimento comercial

Bem-vindo ao serviço de apoio do número nacional de emergência, 112. Por favor seleccione uma das seguintes opções. Para emergências médicas e de saúde, prima, 1. Para emergências de segurança pública e pessoal, prima, 2. Para reportar um acidente ou sinistro, prima, 3. Para outros assuntos ou para falar com um operador de atendimento ao cliente, prima 0.

*Biip*

Você seleccionou, emergência. Médica. E de. Saúde.

Ta na na na naaa, na na naaa, ta na na naa— A sua chamada é importante para nós, por favor aguarde. Será atendido assim que possível. Ta na na na naaa, na na naaa, ta na na naa— A sua chamada é importante para nós, por favor aguarde. Será atendido assim que.

— 112 emergência nacional boa tarde?

— Está, olhe, é para pedir uma ambulância para o meu avô que—

— Concerteza. Estou a ter o prazer de falar com?

— Bláblá Bláblálves.

— Como está, senhor Bláblá Bláblálves, passou bem?

— Hã, bem, obrigado. Ouça, eu estou a precisar duma ambulância para—

— Muito bem, precisa duma ambulância. Vou então pedir que me dê o PIN original do seu cartão de cidadão.

— Quê? Eu sei lá do meu PIN. Isto é mesmo urgente. Não pode…?

— Sem o PIN original do cartão de cidadão, vamos então ter de proceder à autenticação doutra forma. Vou então pedir que me indique o seu número de boletim das vacinas.

— Só um momento.

— Concerteza, senhor Bláblá Bláblálves.

— Pronto. É o nove dois, um um cinco, sete três, sete nove zero.

— Muito obrigado. Vou agora pedir que me indique a morada do hospital onde nasceu.

— É a Rua de Bláblábláblá, dezanove. Vila de Bláblá. Santa Bláblára.

— Muito obrigado. E agora vou pedir que me indique os três últimos algarismos de π.

— São o um, o zero, e o três.

— Muito obrigado. Só um momento, por favor, enquanto autenticamos estes dados. …, …, … Muito obrigado por ter esperado. Vamos então enviar uma ambulância para o senhor Bláblá Bláblálves.

— Não, não é para mim. É para o meu avô que acho que teve um enfarte, que está ali caído no chão.

— Peço imensa desculpa, mas os pedidos para o 112 têm de ser efectuados pelo próprio. Para fazer esse pedido, terá de desligar e ter o próprio utente a requisitar. Há mais alguma coisa em que eu possa ser útil?

— Olhe, não, deixe estar.

— Então em meu nome e do Instituto Nacional de Emergência, desejamos-lhe a continuação duma boa tarde.

O engenhoso arroz do Conde de Cabidela

Quis o Conde de Cabidela reunir, naquele primeiro dia de Inverno, os mais distintos da corte real portuguesa para que pudessem, depois dum passeio montado por entre as mais serenas maravilhas daquele condado, abrir a estação pela digestão dum repasto de sua feitura.

Nobres, clérigos, e distintos fidalgos atenderam ao jantar, particularmente antecipado pela reputa gastronómica das ceias com que o Conde de Cabidela agraciava os seus convidados.

Primeiro, serviu-se o prato de peixe. Os convidados maravilharam-se particularmente com o fino balanço entre o sabor do lombo do robalo, do salgado que se lhe juraria ser de maresia e não de cozinha, e da subtil e contida mistura de especiarias: muito à excepção dos exibicionismos cometidos nos comeres portugueses daquela época.

Então após o peixe, o Conde de Cabidela convoca a atenção de todos:

— «Concebi, especialmente para hoje, um prato inteiramente novo».

Os criados trazem, para cada convidado, num prato de rebordos elevados como os de sopa, algo de aroma pungente e cor nunca antes vista.

Como um caldo, arroz nadava solto, entre lascas de carne de frango, num aquoso castanho escuro.

— «Sangue, não sarrabulho», explicou o Conde. «Trata-se de sangue mantido líquido por um processo muito natural».

Então os convidados torceram o nariz. Primeiro, ao sangue. Depois, ao saber do processo, ao vinagre.

O sangue ainda passaria. Mas vinagre?, vinagre era o que os pobres deitavam na comida para disfarçar o sabor da putrefacção.

Desde aquele serão, nunca mais se ouviu falar do Conde de Cabidela. Tomaram-no por ter caído na senescência ou, pior, no gosto popular.

A verdade é que, hoje em dia, o arroz de cabidela é um dos pratos portugueses mais apreciados pelas famílias em noites de Inverno.

Epístola de São Mitra aos toninhos

Ouve lá, tu nem te passa o que me aconteceu. Tipo, eu estava ali na minha, assim naquela, e vem-me um gajo todo cheio de não sei quê, assim a olhar para mim. E eu, ai que o gajo está a olhar naquela de me faltar ao respeito, que já me está a desafiar. Só que vai e tal, e o gajo põe-se com cenas assim a insinuar.

E eu, que até tinha acabado de fazer um beto para comprar umas Xplod para o meu Ibiza, já estava assim para o chunga, que um gajo há dias que trabalha mais, e deixei andar. Mas o gajo porque não sei quê e porque não sei que mais, lá me convence na cena dele que andava a orientar.

Pá, e eu nem foi pela cena do que o gajo estava a prometer, sabes, mas foi mais naquela do desafio. É que eu sou um gajo que gosta de testar os limites, estás a ver? É a mais a minha cena, tipo, testar as minhas capacidades.

Porque é como eu te digo, nem foi tanto naquela do ai e tal que é para fazer uns trocos para orientar umas cenas. Não foi nessa atitude que eu fui. Fui, porque a minha cena na vida é que um gajo não se define pelo seu trabalho, mas pela música que ouve e pelo respeito que impõe nas ruas.

Isso é que é o mais importante, estás a ver?

Um misto de sandes e salada

Se num café pedirmos uma «sandes mista» é-nos entregue uma sandes de queijo e fiambre.

Mas já se pedirmos uma «salada mista», vem uma salada de alface e tomate.

O «misto» é tão vago que se calhar me deveriam perguntar o que eu quero mesmo. É que há até, nas padarias, «pão misto» — como se fosse o único pão feito de mais de um tipo de cereal —, o que faz com que uma sandes mista possa ser só um pão desses sem mais nada. Tudo o que seja composto por mais de uma coisa é misto.

Uma sandes mista não tem sequer de ter apenas dois tipos de recheio. Que avareza e falta de imaginação, isto de servirem uma fatia de queijo e outra de fiambre como o padrão nacional de sandes mista. Poderia antes ser, imagine-se, uma sandes de rodelas de laranja, tulicreme, camarão, esparguete, bacalhau, e sais de frutos.

Um dia hei-de ter um estabelecimento só para que a minha sandes mista seja de tomate e alface — um misto de sandes e salada. Se não gostarem, peçam a salada mista: é de cubos de pão, queijo e fiambre.

Chuck Norris ao volante

Há tempos explorava as possibilidades de aplicar o estilo do humor pela invencibilidade do sítio web Chuck Norris Facts à condução. As frases resultantes não precisam de mencionar o Chuck Norris, e poderiam muito bem destinar-se a outra pessoa. Foi um exercício de exploração de humor formulaico. Experimente também inventar umas frases e adicionar as suas nos comentários. É fácil.

  • O Chuck Norris anda sempre com as luzes de emergência ligadas.
  • O Chuck Norris não precisa de olhar para trás para fazer marcha-atrás.
  • O Chuck Norris é que reboca o carro de reboque.
  • As linhas tracejadas não significam o que as pessoas pensam. As linhas tracejadas são uma contagem do número de mortos na estrada causados por Chuck Norris.
  • Um peão na passadeira para o Chuck Norris é para o passar para o outro mundo.
  • O principal resíduo do filtro do pó da grelha do carro é ADN.
  • O carro do Chuck Norris não tem escape. Nada escapa ao Chuck Norris.
  • O Chuck Norris arranca em 5ª.
  • O Chuck Norris não tem conta quilómetros. Tem conta óbitos.
  • No contador de velocidade, em vez de números dos Km/h, tem só Zzz.
  • O Chuck Norris não precisa de GPS. Para ele, todos os caminhos vão dar à Justiça.
  • O Chuck Norris espatifa sempre o carro adentro do McDonalds. Para ele o drive in é literal.
  • Chuck Norris não tem passageiros, tem vítimas.
  • O Chuck Norris não tranca o carro.
  • O Chuck Norris leva o carro à oficina para lhe mudarem o óleo, e dão-lhe um novo em folha topo de gama. Sempre.
  • O Chuck Norris não dá pisca. Intimida.
  • O Chuck Norris não paga selo do carro. O Chuck Norris prega um selo no polícia que lhe perguntar isso (piada fraca, eu sei, mas vai à mesma).
  • Ao Chuck Norris ninguém risca o carro. Só arrisca a vida.
  • Com o Chuck Norris, todos os bancos de trás de todos os carros são rebatíveis.
  • A cor do carro do Chuck Norris é Dor.
  • O Chuck Norris não capota o carro. O Chuck Norris vira o carro para limpar as cinzas do cinzeiro.
  • Os arrumadores do carro dão as moedas ao Chuck Norris.
  • As ambulâncias afastam-se para a berma para o Chuck Norris passar.
  • O colete reflector do Chuck Norris são as esporas das botas texanas.
  • Com o Chuck Norris, o semáforo é sempre verde.
  • O Chuck Norris não precisa de faróis para ver à noite, basta-lhe por os olhos mais pequeninos.
  • Segundo o código da estrada, o Chuck Norris tem sempre prioridade.
  • Até nas passagens de nível, os comboios têm de parar.
  • Nas autoestradas, o Chuck Norris pode conduzir na faixa do meio.
  • O Chuck Norris tem o José Cid na mala. É o macaco do carro.
  • Para o Chuck Norris, todas as mudanças são pontos mortos.
  • Não há airbag que resista à barba do Chuck Norris. Não que ele precise.
  • O Chuck Norris não tem porta-luvas. Tem um porta-botas texanas.
  • A seguradora do Chuck Norris nunca lhe agrava o prémio do seguro.
  • Em caso de acidente é sempre culpa da outra pessoa. Mesmo que não haja outra pessoa envolvida no sinistro.
  • O Chuck Norris mete gasóleo num carro a gasolina porque é mais barato, e o carro funciona.
  • O Chuck Norris não rói as unhas ao conduzir. O Chuck Norris mete o dedo no isqueiro do carro.
  • O Chuck Norris chumbou a todas as perguntas do código. E passou.
  • Na prova de condução, o Chuck Norris atropelou o engenheiro. Foi a única parte que ele fez de propósito.
  • O Chuck Norris condiciona o seu próprio ar.

Se eu fosse primeiro-ministro de Portugal

Instauraria a pena de Par de Estalos.

Sendo decretada, o Par de Estalos não contemplaria a possibilidade de pena suspensa. Seria uma pena particularmente indicada para crimes de peculato, abuso de poder, e crimes contra as pessoas.

Qualquer cidadão eleitor poderia alistar-se para ser sorteado para o cargo voluntário de Dador de Estalos.

Um grande abraço, mas só verbal

Sabem quando estão dois homens, um em frente ao outro, e se despedem com um «pá, um grande abraço»?

Um grande abraço, que não é nem grande nem sequer um abraço de verdade.

É só conversa. Paleio. Treta. Não existe nenhum abraço. Nem vai existir.

Se estão na presença um do outro, e se quisessem realmente dar um abraço mútuo, davam.

Receio que com o tempo isto resvale para uma despedida do género dum «gostei de te ver, um grande aperto de mão». Depois partirão os dois, um para cada lado, sem concretizar realmente o aperto de mão assim verbalizado.

Porque todas as coisas deveriam ter um número de telemóvel

Não saber onde deixamos o telemóvel não costuma ser muito problemático: telefonamos-lhe doutro número e, às vezes mesmo que esteja em modo de vibração, normalmente é o que basta para ficarmos a saber onde está o desaparecido.

Agora se o que procuramos é uma carteira ou as chaves do carro, aí não há volta a dar, excepto em sentido literal: é que vai mesmo ser preciso dar voltas e voltas à procura do objecto esquecido em lugar incerto, várias vezes, sem o encontrar. Isto até ser encontrado depois do prazo limite, pelo menos de paciência, e de forma fortuita logo naquele sítio onde tínhamos procurado mil vezes repetidamente.

Todas as nossas coisas deveriam ter o seu próprio número de telefone. Assim só teríamos de ligar para a carteira, para os óculos, para a nossa caneta favorita, para que os procurados se acusassem. E poderíamos também personalizar os toques dos objectos, até porque seria uma questão de tempo até toda a gente deixar de se esforçar para procurar coisas e telefonar-lhes em reuniões, escolas e locais de trabalho.

Ou então, para evitar uma grilharia generalizada, com tecnologia de posicionamento global —ou relativa— e síntese de voz, e o próprio objecto poderia informar-nos via telemóvel da sua posição. Enquanto procurássemos, com uma mão a segurar o telemóvel no ouvido e com a outra a remexer nas coisas que pudessem estar à frente do objecto, iríamos ouvindo: «frio, frio, morno, frio, morno, quente, quente, quente, estás mesmo à minha frente seu palerma».