Porque todas as coisas deveriam ter um número de telemóvel

Não saber onde deixamos o telemóvel não costuma ser muito problemático: telefonamos-lhe doutro número e, às vezes mesmo que esteja em modo de vibração, normalmente é o que basta para ficarmos a saber onde está o desaparecido.

Agora se o que procuramos é uma carteira ou as chaves do carro, aí não há volta a dar, excepto em sentido literal: é que vai mesmo ser preciso dar voltas e voltas à procura do objecto esquecido em lugar incerto, várias vezes, sem o encontrar. Isto até ser encontrado depois do prazo limite, pelo menos de paciência, e de forma fortuita logo naquele sítio onde tínhamos procurado mil vezes repetidamente.

Todas as nossas coisas deveriam ter o seu próprio número de telefone. Assim só teríamos de ligar para a carteira, para os óculos, para a nossa caneta favorita, para que os procurados se acusassem. E poderíamos também personalizar os toques dos objectos, até porque seria uma questão de tempo até toda a gente deixar de se esforçar para procurar coisas e telefonar-lhes em reuniões, escolas e locais de trabalho.

Ou então, para evitar uma grilharia generalizada, com tecnologia de posicionamento global —ou relativa— e síntese de voz, e o próprio objecto poderia informar-nos via telemóvel da sua posição. Enquanto procurássemos, com uma mão a segurar o telemóvel no ouvido e com a outra a remexer nas coisas que pudessem estar à frente do objecto, iríamos ouvindo: «frio, frio, morno, frio, morno, quente, quente, quente, estás mesmo à minha frente seu palerma».

Felix dia d portgal, d kamoex, e dtra cena qq

Espero que este Dia de Portugal não seja o último de Camões.

Recordo por isso que continuam a ser recolhidas assinaturas para o abaixo-assinado contra o Acordo Ortográfico de 1990.

Recomendo também o blog do Manifesto de Defesa da Língua Portuguesa Contra o Acordo Ortográfico, com documentos e pareceres científicos contra, assim como cobertura jornalística internacional do acordo.

Sejamos então neste dia «exigentes e rigorosos» pelo menos com a nossa língua. Se ainda não assinou, assine a petição agora mesmo.

O Ze Frank compreende-me

Acabo de receber isto, no correio electrónico:

Hi, Ricardo José.

zefrank (zefrank) is now following your updates on Twitter.

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http://twitter.com/zefrank

Best,
Twitter

Aproveito este momento de atenção temporária do Ze Frank, até ele reparar que não escrevo em inglês, para partilhar o seu episódio sobre criatividade. O Ze Frank pode não perceber português, mas parece andar perto de perceber o problema universal da busca pela criatividade.



Quando é que deitam os Wham! ao lixo?

Já ninguém suporta o Last Christmas dos Wham!. Nem ironicamente, nem para gozar.

A música nem em 1984 tinha graça.

Então porque é que mesmo assim ainda temos de aturar essa música na
televisão, na rádio, e nos centros comerciais? Querem perder a
clientela, é?

Parem com isso, se faz favor.

As paródias à música já foram todas exploradas, e mesmo das paródias estamos todos cansados.

Não se importam? Estão a fazer-me doer a cabeça.

Já enjoa.

E estão a deixar-me maluco.

Chega de Last Christmas dos Wham!! (o primeiro ponto de exclamação é do nome da banda – o segundo é meu).

A sério, já basta.

Isso é uma arma no bolso, ou tem cinquenta cêntimos que me arranje?

Diz o Viriato que detesta que lhe perguntem nas caixas registadoras se tem mais dinheiro trocado. Já eu, eu agradeço.

É que os meus detestares são outros.

Não gosto como num instante junto mais dinheiro em metal no bolso das calças do que em papel na carteira. Prefiro papel a metal, e plástico a papel.

Se ao apresentar uma nota gorda para pagar uma pequena quantia nos perguntarem «E cinquenta cêntimos, não tem?» se lembrarem que está montada a cena para rematar «Porquê? Esse não chega?» podem ter ganho a oportunidade de se mostrarem espertinhos – mas a que custo?

O acumular de trocos no bolso começa com a preguiça de fazer contas, de ter de ir ao fundo do bolso das calças e trazê-las de lá, com cuidado para não deixar cair muitas por entre os dedos.

No início, as moedas causam uma leve chocalheira que me faz parecer que trago botas com esporas num Western.

Só que às tantas tenho tantos quilogramas de metal comigo que já não sou um cowboy mas um RoboCop.

Por isso, quando estendo uma nota à caixa, estou a torcer para que me pergunte quanto deveria eu, em moedas, dispensar-lhe. Assim escuso de fazer contas de cabeça e de içar uma tonelagem de moedas superior àquela que iria precisar para pagar.

A quem minto descaradamente é aos parasitas que atitam flauta de bisel e deixam cair pinos malabares ao chão como se estivéssemos em 1755 quando me pedem dinheiro nas ruas. A esses respondo «Não tenho trocado» e sigo em frente, com os bolsos a fazer schuim, schuim, schuim, como um forasteiro em direcção a outra cidade sem que ninguém tivesse tempo de me perguntar o nome.

Cara e coroa

No outro dia passeava no centro comercial quando de repente cruzo olhares com um senhor que era a cara chapada do Jerónimo de Sousa.

Claro que me sobressaltei, até porque nesse preciso momento estava a ter pensamentos muito capitalistas.

O lado negro da Nelly

Canções temáticas para eventos cantadas por artistas pop são uma chatice, até porque num instante ficam ressessas. Depois é aturá-las como os anúncios natalícios que sobram nas rádios durante as primeiras semanas de Janeiro.

Mas a Nelly Furtado bem que podia licenciar a música do Euro2004 ao George Lucas, para a integrar no mundo Star Wars:

«Com uma Força, com uma Força que ninguém pode parar».