Ditavam as regras da língua portuguesa que a letra «Z» num final de uma palavra causava a vogal precedente a tornar-se aberta ou tónica.
A Revisão Ortográfica de 1911 veio alterar essa regra, substituindo palavras terminadas com sílaba tónica causada pela letra «Z» por uma grafia de pronúncia equivalente sem o «Z» e com o respectivo acento na vogal. Assim, palavras como:
Gaz
Freguez
Paiz
Transformaram-se respectivamente em:
Gás
Freguês
País
Suponho que o objectivo deste ponto da revisão era fazer com que a letra «Z» deixasse de servir de indicador tónico. Para quê? Não sabemos, mas ao cair o Z passou a ser necessário um acento.
Desta revisão exceptuaram-se as formas dos tempos verbais, como «traz» (do verbo Trazer), ou «faz» (do verbo Fazer), para que se mantivessem a sua raiz.
Contudo sobraram, ou terão ficado esquecidos dos prontuários, milhares e milhares de substantivos e adjectivos que mantiveram a mesma grafia e regra de pronúncia após aquela revisão:
Cartaz
Nitidez
Feliz
Arroz
Capuz
Liquidez
(Hipoteticamente «cartás, nitidês, felís, arrôs, capús, liquidês», segundo o modelo daquela revisão ortográfica).
O resultado é termos agora dois conjuntos de palavras que terminam em vogal com som «CH», com duas formas indiscriminadas de gerar a sua grafia.
O que levou a alterar umas e não outras? Bem, constato que as palavras que mantêm a terminação em «Z» são aquelas cuja última sílaba se separa da anterior por uma consoante.
Mas então para quê alterar pelo menos algumas? Se a questão fosse corrigir a incoerência da pronúncia do som «CH» no final da palavra com a letra «Z», então esta questão mantém-se. O «S» final das palavras corresponde ao som de «CH», e não a um «S» sibilante. Nessa medida, uma actualização rigorosa colocaria a letra «X» sempre que um «S» tivesse esse som, desta forma: doix, trêx, lápix, e uma grafia já previamente usada no passado: Lixboa.
Não seria com certeza para corrigir uma possível incoerência entre a causalidade de uma tónica aguda ou esdrúxula, pois é claramente constatável pela observação que as vogais «A» «I» e «U» tornam-se agudas, enquanto que as vogais «E» e «O» se tornam sempre esdrúxulas.
Então cometeu-se um erro de proporções calamitosas, como em quase todas as revisões ortográficas. As regras ficaram mais complicadas, e não se ajustou a grafia à sua tradução oral.
Assim, resta-nos esperar que:
a) Aquelas palavras esquecidas sejam todas actualizadas para o modelo da revisão de 1911, acrescentando mais e mais acentos à ortografia portuguesa.
Aprás
Nudês
Raís
Fós
Lús
b) Se faça reverter a ortografia destas palavras à sua forma prévia à revisão de 1911, uma vez que esta não trouxe vantagem do ponto de vista da coerência entre a fonética daquelas sílabas e a sua grafia, corrigindo assim este erro histórico.
Gaz
Freguez
Paiz
c) Se mantenham os acentos e acrescentem aqueles que faltam, mas substituir o «S» por «X» no final daquelas palavras.
Gáx
Freguêx
Paíx
d) Ou, finalmente, se eliminem os acentos, se recupere a regra da pronunciação causada pela letra «Z» (que nunca deixou de vigorar nas palavras não actualizadas) mas substitui-la pelo «X».
Gax
Freguex
Paix
Ou isto, ou então deixar as coisas como estão, não? As revisões ortográficas, mesmo que suportadas em argumentos ainda que aparentemente muito racionais, só trazem margem para erros, lacunas, «deficiências e erros» e, pior que tudo, a descaracterização da língua.