A teologia da diacrítica

Como designar aquele que não crê ser possível conhecer a própria possibilidade da existência de Deus?

Anagnóstico? Não pode ser, pois a palavra é relativa a anagnosta.

A-agnóstico? Não dá, porque não se fazem prefixos de negação por justaposição hifenizada.

Aägnóstico? Sim, isto é que era. Seria tão giro que a língua portuguesa não só não tivesse perdido o trema (que se usava para assinalar a pronúncia de vogais normalmente mudas1), como tivesse alargado o seu uso para todas as vogais que, sendo justapostas, se tomam e pronunciam como independentes2.

  1. E.g., «queijo» e «cinqüenta». []
  2. Até a revista New Yorker, que tem ortografia própria, assim o faz em inglês, para palavras como «coöperation» []

Um misto de sandes e salada

Se num café pedirmos uma «sandes mista» é-nos entregue uma sandes de queijo e fiambre.

Mas já se pedirmos uma «salada mista», vem uma salada de alface e tomate.

O «misto» é tão vago que se calhar me deveriam perguntar o que eu quero mesmo. É que há até, nas padarias, «pão misto» — como se fosse o único pão feito de mais de um tipo de cereal —, o que faz com que uma sandes mista possa ser só um pão desses sem mais nada. Tudo o que seja composto por mais de uma coisa é misto.

Uma sandes mista não tem sequer de ter apenas dois tipos de recheio. Que avareza e falta de imaginação, isto de servirem uma fatia de queijo e outra de fiambre como o padrão nacional de sandes mista. Poderia antes ser, imagine-se, uma sandes de rodelas de laranja, tulicreme, camarão, esparguete, bacalhau, e sais de frutos.

Um dia hei-de ter um estabelecimento só para que a minha sandes mista seja de tomate e alface — um misto de sandes e salada. Se não gostarem, peçam a salada mista: é de cubos de pão, queijo e fiambre.

Fork lá a língua portuguesa!

No mundo do open source, um qualquer momento de desenvolvimento dum programa informático pode ser bifurcado num outro programa. Os programadores chamam-lhe fork.

A língua portuguesa, que é do domínio público, pode ser tratada da mesma forma.

Entre os países hispano-falantes chegou a haver uma proposta de reforma linguística para uma ortografia fonética. A ortografia de Bello falhou, no final abandonada pelo país fundador que a chegou a adoptar, o Chile.

Na Wikipedia espanhola, em Ortografía del español, podemos ler:

El resultado de la larga divergencia y de la oposición planteada en otros marcos a la RAE ha sido una flexibilización de los criterios de esta; las ediciones del Diccionario y la Ortografía de la década de 1990 han reconocido finalmente que ciertas pronunciaciones varían entre España y América, han aseverado el estatus predominante del seseo y el yeísmo, y admitido el reconocimiento gráfico de las variaciones en la formación de diptongos.

Ou seja, quando na década de 1990 a comunidade de falantes da língua espanhola reconheceu a diversidade da sua língua, os palermas dos falantes do português optaram pela homogeneidade.

Ainda no idioma espanhol, podemos por vezes encontrar em software, frente à designação da língua espanhola, a opção «ordenación tradicional»1. Tal não se refere tanto à ortografia, mas quanto à forma como o alfabeto é ordenado. Mas tomemos a solução como analogia para o que poderemos fazer hoje com o português.

A minha proposta ao mundo é então esta: que em publicações, sítios web e aplicações onde se adopte o «Acordo» Ortográfico de 1990, se juntem outros tradutores resistentes para oferecer uma versão de Português (Tradicional), por forma oficial através do próprio serviço ou pela disponibilização dum ficheiro de tradução à parte.

Assim poderíamos fazer ver que, quando as pessoas não querem, como aconteceu no século XX em Espanha, as ortografias não são ditadas nem pela Real Academia Española nem pelo Governo de José Sócrates. São as pessoas os donos da língua.

Tomemo-la de volta e bifurquemo-la do Governo se tiver de ser. A língua é nossa, e o código-fonte é aberto.

  1. es-ES_tradnl, para os informáticos []

Admirável Mundo Novo

Chateiam-me pessoas que usam o título «Admirável Mundo Novo», normalmente como uma exclamação. E usam esse título como se fosse uma expressão, não para criticar algum aspecto huxliano, mas para exprimir agrado — normalmente por alguma conveniência oferecida pela tecnologia. «Ah!… Admirável Mundo Novo!»

O meu problema é o tal tom de agrado. De agrado! Essas pessoas terão por acaso, tipo, lido o livro?

O meu voto não é mais secreto

Não sei se foi imaginação minha ou se li no blog de alguém quem dissesse que se o Acordo Ortográfico fosse ratificado por Portugal que passaria a votar em branco. Sei é que fiz daquela posição a minha posição, já a partir do próximo acto eleitoral que será para mim um ato eleitoral mesmo pela grafia actual.

Um país não é um hino ou um desenho numa bandeira. Um país é a sua língua e é a sua cultura.

E se um conjunto de políticos se arroga o direito de interferir na língua que é minha, contra aquilo que caracteriza a cultura dos cidadãos dum país, servindo interesses que não os dos portugueses, então repudio-os, porque já não são mais políticos de Portugal.

A partir de hoje e para sempre, se este acordo não tiver retrocesso, o meu voto será sempre público e será sempre o mesmo: votarei em branco.

Artigos prévios: Abaixo-assinado contra a idiotia, Ainda contra o acordo ortográfico, Porque não quero o novo Acordo Ortográfico.

Um grande abraço, mas só verbal

Sabem quando estão dois homens, um em frente ao outro, e se despedem com um «pá, um grande abraço»?

Um grande abraço, que não é nem grande nem sequer um abraço de verdade.

É só conversa. Paleio. Treta. Não existe nenhum abraço. Nem vai existir.

Se estão na presença um do outro, e se quisessem realmente dar um abraço mútuo, davam.

Receio que com o tempo isto resvale para uma despedida do género dum «gostei de te ver, um grande aperto de mão». Depois partirão os dois, um para cada lado, sem concretizar realmente o aperto de mão assim verbalizado.

Felix dia d portgal, d kamoex, e dtra cena qq

Espero que este Dia de Portugal não seja o último de Camões.

Recordo por isso que continuam a ser recolhidas assinaturas para o abaixo-assinado contra o Acordo Ortográfico de 1990.

Recomendo também o blog do Manifesto de Defesa da Língua Portuguesa Contra o Acordo Ortográfico, com documentos e pareceres científicos contra, assim como cobertura jornalística internacional do acordo.

Sejamos então neste dia «exigentes e rigorosos» pelo menos com a nossa língua. Se ainda não assinou, assine a petição agora mesmo.

Pela revisão ortográfica da terminação em Z

Ditavam as regras da língua portuguesa que a letra «Z» num final de uma palavra causava a vogal precedente a tornar-se aberta ou tónica.

A Revisão Ortográfica de 1911 veio alterar essa regra, substituindo palavras terminadas com sílaba tónica causada pela letra «Z» por uma grafia de pronúncia equivalente sem o «Z» e com o respectivo acento na vogal. Assim, palavras como:

Gaz
Freguez
Paiz

Transformaram-se respectivamente em:

Gás
Freguês
País

Suponho que o objectivo deste ponto da revisão era fazer com que a letra «Z» deixasse de servir de indicador tónico. Para quê? Não sabemos, mas ao cair o Z passou a ser necessário um acento.

Desta revisão exceptuaram-se as formas dos tempos verbais, como «traz» (do verbo Trazer), ou «faz» (do verbo Fazer), para que se mantivessem a sua raiz.

Contudo sobraram, ou terão ficado esquecidos dos prontuários, milhares e milhares de substantivos e adjectivos que mantiveram a mesma grafia e regra de pronúncia após aquela revisão:

Cartaz
Nitidez
Feliz
Arroz
Capuz
Liquidez

(Hipoteticamente «cartás, nitidês, felís, arrôs, capús, liquidês», segundo o modelo daquela revisão ortográfica).

O resultado é termos agora dois conjuntos de palavras que terminam em vogal com som «CH», com duas formas indiscriminadas de gerar a sua grafia.

O que levou a alterar umas e não outras? Bem, constato que as palavras que mantêm a terminação em «Z» são aquelas cuja última sílaba se separa da anterior por uma consoante.

Mas então para quê alterar pelo menos algumas? Se a questão fosse corrigir a incoerência da pronúncia do som «CH» no final da palavra com a letra «Z», então esta questão mantém-se. O «S» final das palavras corresponde ao som de «CH», e não a um «S» sibilante. Nessa medida, uma actualização rigorosa colocaria a letra «X» sempre que um «S» tivesse esse som, desta forma: doix, trêx, lápix, e uma grafia já previamente usada no passado: Lixboa.

Não seria com certeza para corrigir uma possível incoerência entre a causalidade de uma tónica aguda ou esdrúxula, pois é claramente constatável pela observação que as vogais «A» «I» e «U» tornam-se agudas, enquanto que as vogais «E» e «O» se tornam sempre esdrúxulas.

Então cometeu-se um erro de proporções calamitosas, como em quase todas as revisões ortográficas. As regras ficaram mais complicadas, e não se ajustou a grafia à sua tradução oral.

Assim, resta-nos esperar que:

a) Aquelas palavras esquecidas sejam todas actualizadas para o modelo da revisão de 1911, acrescentando mais e mais acentos à ortografia portuguesa.

Aprás
Nudês
Raís
Fós
Lús

b) Se faça reverter a ortografia destas palavras à sua forma prévia à revisão de 1911, uma vez que esta não trouxe vantagem do ponto de vista da coerência entre a fonética daquelas sílabas e a sua grafia, corrigindo assim este erro histórico.

Gaz
Freguez
Paiz

c) Se mantenham os acentos e acrescentem aqueles que faltam, mas substituir o «S» por «X» no final daquelas palavras.

Gáx
Freguêx
Paíx

d) Ou, finalmente, se eliminem os acentos, se recupere a regra da pronunciação causada pela letra «Z» (que nunca deixou de vigorar nas palavras não actualizadas) mas substitui-la pelo «X».

Gax
Freguex
Paix

Ou isto, ou então deixar as coisas como estão, não? As revisões ortográficas, mesmo que suportadas em argumentos ainda que aparentemente muito racionais, só trazem margem para erros, lacunas, «deficiências e erros» e, pior que tudo, a descaracterização da língua.

Abaixo-assinado contra a idiotia

O acordo ortográfico foi aprovado no Parlamento, o que para mim é estranho. Como é que sendo os portugueses contra o acordo, e qualquer cidadão de Portugal apto a explicar porquê, se passa uma coisa destas no Parlamento? Estarão ao serviço doutro país, ou serão os nossos deputados apenas muito menos inteligentes do que a média da população portuguesa a um nível de retardo outrora inimaginável?

Por enquanto, continuam a ser recolhidas assinaturas na petição electrónica que já assinei, e que será entregue ao Presidente da República de Portugal, do qual depende a promulgação daquele acordo. Todas as assinaturas são precisas, não basta olhar para a petição e aprovar mentalmente. É que o abaixo-assinado que chegar ao Presidente da República é mesmo o nosso último recurso.