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	<title>Ensaio Geral</title>
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	<description>Edição de autor</description>
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		<title>Toxicidade geral</title>
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		<pubDate>Sat, 04 Feb 2012 23:14:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>RJ Pinho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Heterónimos avulsos]]></category>

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		<description><![CDATA[O mundo é tóxico, imundo, prolixo em lixo, de ócio ocidental, ópio mundial, todo contaminado, todo minado. São tóxicas as cidades, são tóxicas as pessoas. Tudo o que é humano, é tóxico. São tóssicas as pessoas que tossem para o &#8230; <a href="http://www.rjcp.pt/diario/2012/02/toxicidade-geral/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O mundo é tóxico, imundo, prolixo em lixo, de ócio ocidental, ópio mundial, todo contaminado, todo minado.</p>
<p>São tóxicas as cidades, são tóxicas as pessoas. Tudo o que é humano, é tóxico.</p>
<p>São tóssicas as pessoas que tossem para o punho fechado, que segura um microfone invisível de micróbios, para anunciar bem, <em>ahem</em>, tomem lá disto, que é tóxico.</p>
<p>São tóchicos os Tó Chicos, chico-espertos que não sabem o que são xi-corações, feitos de xisto e chistes, frios e fáceis, fatelas e foleiros.</p>
<p>São tócsicos os toques, javardos, parvos, de pessoas-táxi que se provam em privado, saem intoxicadas, e depois privam que provaram estamina estouvada, e se contaminam, contaminam outros, contaminam contos de fadas com contas de fodas.</p>
<p>As cidades, todas Tóxio, todas toksycidade. De Kyoto também um coto. Lisboa dantes pelos vistos cheirava bem, cheirava a Goa, mas o fado foi sal e foi azar de ter sido selo de Salazar, e foi-se a Amália, o martelo e a foice. Agora amai-a, a cidade malograda, a Kapital onde é tóxico o techno e o ecstasy, junto texasy, porque em Houston é igual, ¿sexo así?, tudo igual no mundo tóxico, e claro que aqui é assim.</p>
<p>Cidades num mundo de plástico como o sorriso das pessoas, tóxicos os fumos e os flatos, em sentido lato, de facto, e por cima do mundo, por cima da camada de jactos jactantes, eixos taxativos de gente-sémen, há satélites — satélites que troçam, que trocam toxinas da Catrina, de mão em mão, em directo da Praça do Marquês do Pombal para o terceiro mundo — a contar do Sol.</p>
<p>Face ao presente exposto, senhor presidente da assembleia de assentos e emblemas, a nossa recomendação é de lavar abundantemente (Génesis 7:12) os olhos de que quem não enxerga, e que, em caso de dúvida ou persistência dos sintomas, se verifique a toma ou se consulte um tomo, o que ocorrer primeiro, que é como quem diz o que primeiro vier à cabeça. Como isto.</p>
<p>Publique-se.</p>
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		<title>A teologia da diacrítica</title>
		<link>http://www.rjcp.pt/diario/2011/12/teologia-da-diacritica/</link>
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		<pubDate>Mon, 19 Dec 2011 15:21:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>RJ Pinho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Língua]]></category>

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		<description><![CDATA[Como designar aquele que não crê ser possível conhecer a própria possibilidade da existência de Deus? Anagnóstico? Não pode ser, pois a palavra é relativa a anagnosta. A-agnóstico? Não dá, porque não se fazem prefixos de negação por justaposição hifenizada. &#8230; <a href="http://www.rjcp.pt/diario/2011/12/teologia-da-diacritica/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Como designar aquele que não crê ser possível conhecer a própria possibilidade da existência de Deus?</p>
<p>Anagnóstico? Não pode ser, pois a palavra é relativa a <a href="http://www.infopedia.pt/pesquisa-global/anagnosta">anagnosta</a>.</p>
<p>A-agnóstico? Não dá, porque não se fazem prefixos de negação por justaposição hifenizada.</p>
<p>Aägnóstico? Sim, isto é que era. Seria tão giro que a língua portuguesa não só não tivesse perdido o trema (que se usava para assinalar a pronúncia de vogais normalmente mudas<sup><a href="http://www.rjcp.pt/diario/2011/12/teologia-da-diacritica/#footnote_0_1392" id="identifier_0_1392" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Por exemplo, entre &laquo;queijo&raquo; e &laquo;cinq&uuml;enta&raquo;.">1</a></sup>), como tivesse alargado o seu uso para todas as vogais que, sendo justapostas, se tomam e pronunciam como independentes<sup><a href="http://www.rjcp.pt/diario/2011/12/teologia-da-diacritica/#footnote_1_1392" id="identifier_1_1392" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="At&eacute; a revista New Yorker, que tem ortografia pr&oacute;pria, assim o faz em ingl&ecirc;s, para palavras como &laquo;co&ouml;peration&raquo;">2</a></sup>.</p>
<ol class="footnotes"><li id="footnote_0_1392" class="footnote">Por exemplo, entre «queijo» e «cinqüenta».</li><li id="footnote_1_1392" class="footnote">Até a revista New Yorker, que tem ortografia própria, assim o faz em inglês, para palavras como «coöperation»</li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>Se o 112 fosse uma central de atendimento comercial</title>
		<link>http://www.rjcp.pt/diario/2011/12/se-o-112-fosse-uma-central-de-atendimento-comercial/</link>
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		<pubDate>Wed, 14 Dec 2011 23:48:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>RJ Pinho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Humor]]></category>

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		<description><![CDATA[Bem-vindo ao serviço de apoio do número nacional de emergência, 112. Por favor seleccione uma das seguintes opções. Para emergências médicas e de saúde, prima, 1. Para emergências de segurança pública e pessoal, prima, 2. Para reportar um acidente ou &#8230; <a href="http://www.rjcp.pt/diario/2011/12/se-o-112-fosse-uma-central-de-atendimento-comercial/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Bem-vindo ao serviço de apoio do número nacional de emergência, 112. Por favor seleccione uma das seguintes opções. Para emergências médicas e de saúde, prima, 1. Para emergências de segurança pública e pessoal, prima, 2. Para reportar um acidente ou sinistro, prima, 3. Para outros assuntos ou para falar com um operador de atendimento ao cliente, prima 0.</em></p>
<p>*Biip*</p>
<p><em>Você seleccionou, emergência. Médica. E de. Saúde.</p>
<p>Ta na na na naaa, na na naaa, ta na na naa— A sua chamada é importante para nós, por favor aguarde. Será atendido assim que possível. Ta na na na naaa, na na naaa, ta na na naa— A sua chamada é importante para nós, por favor aguarde. Será atendido assim que.</em></p>
<p>— 112 emergência nacional boa tarde?</p>
<p>— Está, olhe, é para pedir uma ambulância para o meu avô que—</p>
<p>— Concerteza. Estou a ter o prazer de falar com?</p>
<p>— Bláblá Bláblálves.</p>
<p>— Como está, senhor Bláblá Bláblálves, passou bem?</p>
<p>— Hã, bem, obrigado. Ouça, eu estou a precisar duma ambulância para—</p>
<p>— Muito bem, precisa duma ambulância. Vou então pedir que me dê o PIN original do seu cartão de cidadão.</p>
<p>— Quê? Eu sei lá do meu PIN. Isto é mesmo urgente. Não pode&#8230;?</p>
<p>— Sem o PIN original do cartão de cidadão, vamos então ter de proceder à autenticação doutra forma. Vou então pedir que me indique o seu número de boletim das vacinas.</p>
<p>— Só um momento.</p>
<p>— Concerteza, senhor Bláblá Bláblálves.</p>
<p>— Pronto. É o nove dois, um um cinco, sete três, sete nove zero.</p>
<p>— Muito obrigado. Vou agora pedir que me indique a morada do hospital onde nasceu.</p>
<p>— É a Rua de Bláblábláblá, dezanove. Vila de Bláblá. Santa Bláblára.</p>
<p>— Muito obrigado. E agora vou pedir que me indique os três últimos algarismos de π.</p>
<p>— São o um, o zero, e o três.</p>
<p>— Muito obrigado. Só um momento, por favor, enquanto autenticamos estes dados. …, …, … Muito obrigado por ter esperado. Vamos então enviar uma ambulância para o senhor Bláblá Bláblálves.</p>
<p>— Não, não é para mim. É para o meu avô que acho que teve um enfarte, que está ali caído no chão.</p>
<p>— Peço imensa desculpa, mas os pedidos para o 112 têm de ser efectuados pelo próprio. Para fazer esse pedido, terá de desligar e ter o próprio utente a requisitar. Há mais alguma coisa em que eu possa ser útil?</p>
<p>— Olhe, não, deixe estar.</p>
<p>— Então em meu nome e do Instituto Nacional de Emergência, desejamos-lhe a continuação duma boa tarde.</p>
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</ol></p>]]></content:encoded>
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		<title>E então, o que tens feito?</title>
		<link>http://www.rjcp.pt/diario/2011/12/e-entao-que-tens-feito/</link>
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		<pubDate>Sun, 04 Dec 2011 00:57:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>RJ Pinho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Expressão pessoal]]></category>

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		<description><![CDATA[Se uma pessoa não vê outra há algum tempo, tende a perguntar: — E então, o que tens feito? O que tens feito. Nunca o que tens pensado, o que tens aprendido, o que tens vivido, o que tens sido.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Se uma pessoa não vê outra há algum tempo, tende a perguntar:</p>
<p>— E então, o que tens feito?</p>
<p>O que tens feito. Nunca o que tens pensado, o que tens aprendido, o que tens vivido, o que tens sido.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Complicação da incerteza</title>
		<link>http://www.rjcp.pt/diario/2011/11/complicacao-da-incerteza/</link>
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		<pubDate>Mon, 28 Nov 2011 02:55:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>RJ Pinho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Expressão pessoal]]></category>

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		<description><![CDATA[O tempo traz angústia ao tempo que não passa. E a angústia tira tempo ao tempo que falta.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O tempo traz angústia ao tempo que não passa.</p>
<p>E a angústia tira tempo ao tempo que falta.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>O lencinho da Inês</title>
		<link>http://www.rjcp.pt/diario/2011/11/o-lencinho-da-ines/</link>
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		<pubDate>Fri, 25 Nov 2011 14:20:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>RJ Pinho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[Naquela Primavera, quase que tive o meu primeiro beijo. Estava no 5º ano. A minha mãe mandava-me ir, à tarde, depois da escola, para a casa da D. Emília, para estudar. Ou, como às vezes dizia, para ter explicações. A &#8230; <a href="http://www.rjcp.pt/diario/2011/11/o-lencinho-da-ines/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Naquela Primavera, quase que tive o meu primeiro beijo.</p>
<p>Estava no 5º ano. A minha mãe mandava-me ir, à tarde, depois da escola, para a casa da D. Emília, para estudar. Ou, como às vezes dizia, para ter explicações. A D. Emília era amiga da minha mãe, vizinha dali perto, e mãe da Inês.</p>
<p>Aquele passeio entre a escola e a casa da Inês era o meu melhor bocado. Detestava a escola, e detestava ter de estudar depois, mas o passeio – o passeio, era algo espiritual. Passava pela minha própria casa, sem entrar, e metia-me a pé pelas bermas de campos agrícolas, directo a casa dela. Passava por um ribeiro que borbulhava a fresco, sempre o som familiar do ribeiro, e pisava ervas de verde vivo de Março com as minhas botas à prova de água. Quando chegava à porta da casa da Inês, dava patadas com força no chão de cimento para largar nacos de terra das botas, e limpava com muita força as solas no tapete de plástico. O som da sola a raspar no tapete de plástico fazia-me arrepiar a espinha, mas eu fazia questão em mostrar que me esforçava por entrar limpo (eu tinha de ser o bom rapazinho que a minha mãe queria; pequeno embaixador, perfeita representação do que a minha mãe queria que as outras pessoas pensassem de mim).</p>
<p>Foi a Inês que me abriu a porta.</p>
<p>— Olá.<br />
— Olá.<br />
— Entra, a minha mãe está a chegar.</p>
<p>Fiz a rotina do costume. Fui para o meu lugar na mesa da sala da D. Emília, subi a cadeira, e levei para cima da mesa a minha mochila. Apertei os lados dos fechos de plástico, um de cada vez, para os destrancar. De dentro, veio o habitual cheiro forte a pão que a minha mãe me fazia para eu lanchar na escola mas que eu nunca comia (para não me passar por totó no ciclo, comprava antes uns Mars na cantina. Depois, com remorsos, custava-me deitar fora os pães da minha mãe, e por isso é que a minha mochila cheirava sempre tanto a pão e tanto a esquisito).</p>
<p>Alinhei em cima da toalha, à minha frente: o meu porta-lápis, a minha capa A4 com separadores (um por disciplina), e os manuais de inglês e francês. A especialidade da D. Emília era ajudar com línguas, sobretudo o francês.</p>
<p>Pronto.</p>
<p>Agora estava à espera (porque é que estava à espera?).</p>
<p>Senti a pressão do silêncio. O relógio de pêndulo parecia que fazia um estalido de língua, impaciente, uma vez por segundo (mais ou menos). De resto, só o som de roupa a mexer, se eu me mexesse. A Inês estava na cadeira dela, a olhar para as pontas dos seus dedos a tocarem-se. Eu tentava não me mexer.</p>
<p>— A minha mãe não está.</p>
<p>Tomei aquela declaração como licença para começar sem a D. Emília, para me ir adiantando nos deveres. Agora já havia som, o som de cadernos, folhas, páginas a virar, lápis e esferográficas a serem baralhadas no porta-lápis para escolher algo com que escrever. O mundo estava normal, outra vez. Folheei até à página da aula de hoje do caderno de francês, e comecei a olhar para os espaços do exercício que tinha de levar preenchidos para a próxima aula: <em>Tu ______ (être) très jolie</em>.</p>
<p>— Foi ao supermercado. Disse que vem já.</p>
<p>Escrevo, com o meu lápis mal afiado (não queria pedir agora à Inês se tinha um aguça, e nem sabia porquê), no caderno, muito de leve (para o caso de ser preciso apagar depois), <em>est</em>. A D. Emília haveria de gostar de ver os meus exercícios já feitos quando chegar, e se tivesse poucos erros até poderia ir mais cedo para casa.</p>
<p>Com as duas mãos, a Inês empurra, com as mãos sobre a toalha da mesa, para a minha direcção, um ovo de plástico amarelo.</p>
<p>— Toma. É para ti.</p>
<p>Era a bola amarela do interior dum ovo Kinder Surpresa. Para mim?, não pergunto. Abro. O som hermético, característico, das bolas amarelas dos ovos Kinder a abrir. Só que ali dentro, em vez dum brinde de plástico, um tecido. Tiro-o. É um lencinho, pequenino, um quadrado do tamanho duma base de copos. Estendo-o. É branco, de tecido muito fino, com um passarinho bordado. O passarinho é cor-de-rosa, e azul-bebé no bico e nas patas. Dito assim, pode parecer estranho, uma versão daltónica dum pintainho, mas hoje vejo, na memória que tenho dele, que era um passarinho muito querido.</p>
<p>Enquanto abria o ovo, estendia o lenço, e tentava perceber o passarinho, a Inês tinha vindo sentar-se na cadeira ao meu lado, à minha esquerda. Nem a vi chegar.</p>
<p>— Gostas?</p>
<p>De repente, o meu coração começou a bater muito forte. Queria sair dali. Não conseguia aguentar aquilo. Aquilo tudo. Tirei os olhos dela, com medo, e fixei-me no passarinho. Olhei para o lenço com tanta força que em vez dum passarinho, querido, via apenas linhas de costura. Via, de tanta força, que aquilo era apenas um objecto, que alguém costurou pontos num tecido, e que o tecido, ele próprio, havia sido feito numa fábrica qualquer, por alguém ou por uma máquina. Era um objecto físico do mundo material. Só isso.</p>
<p>Tinha conseguido evitar o meu primeiro enfarte cardíaco da minha vida.</p>
<p>E então ela aproxima-se ainda mais de mim. A cabeça dela começou a chegar-se perto da minha, e pareceu que sentia um campo eléctrico qualquer. Olhei para ela, a tentar perceber se o que ela estaria a pensar fazer era o que eu estava a pensar, mas isso só fez pior: as nossas caras ficaram de frente uma para a outra, perfeitamente alinhadas. Ela pára um bocadinho, para eu me habituar à proximidade, à ideia. O meu coração, ai, estava outra vez pior que o pêndulo irregular do relógio de sala, só que multiplicado por infinitos.</p>
<p>Eu queria implodir. Eu não queria aquilo. Eu não queria que a minha mãe soubesse do que estava a acontecer, e a minha mãe <em>iria</em> saber, porque de certeza absoluta que a Nossa Senhora de Fátima estaria a ver-me agora e lhe iria dizer depois, à noite, quando a minha mãe rezasse e falasse com ela.</p>
<p>A Inês retoma, hesita. Hesita. Eu era uma estátua morta, branca, fria.</p>
<p>Ouvi (com muita força) um carro. Sim, era o som do carro da D. Emília a chegar. O som dos pneus a trilhar brita, a minha salvação! Eu estava de costas para a janela da sala, mas é como se eu estivesse a ver o Peugeot branco da D. Emília a parar em frente da casa. O meu alívio.</p>
<p>— A tua mãe…</p>
<p>A Inês deixa cair os ombros e volta para o seu lugar, desconsolada. Eu pego no lencinho e nas duas metades amarelas do ovo de plástico, e atiro-as para dentro da mochila, para apagar dali os vestígios daquele pecado.</p>
<p>Passei o resto daquela hora a dar erros de francês e de inglês.</p>
<p>— Tu hoje estás desconcentrado. Passou-se alguma coisa na escola?</p>
<p>Eu tentava não pensar no que se tinha passado, para evitar que o meu pensamento fosse lido pela D. Emília. Com adultos, era preciso ter sempre cuidado com os pensamentos: eles poderiam ver; era preciso pensar noutras coisas, com muita força (sempre com muita força), na sua presença.</p>
<p>Quando cheguei a casa, disse à minha mãe que não queria mais explicações. Que eu me iria esforçar para estudar mais em casa. Que iria tirar boas notas, de certeza. Eu não precisava mais de explicações.</p>
<p>— Está tudo bem contigo? Aconteceu-te alguma coisa?</p>
<p>Parecia que <em>todos</em> os adultos conseguiam ler pensamentos. Eu tinha de ser melhor a pensar noutras coisas enquanto falava com adultos. Concentrei-me nos Thundercats.</p>
<p>— Está. Só que quero estudar no meu quarto. Não preciso da D. Emília. Já sou crescido, mãe.</p>
<p>Mas não era crescido.</p>
<p>Escondi o lencinho atrás do livros das minhas estantes, livros inocentes de criança, até pensar como me desfazer dele antes que a minha mãe o visse. Acabei por o deitar ao lixo, um dia, juntamente com uns pães cheios de bolor.</p>
<p>A D. Emília foi colocada noutra terra qualquer, logo em Setembro daquele ano; nunca mais vi a Inês. Já mal me lembro da cara dela, só do cabelo (era preto) e que andava a aprender violino (nunca a ouvi tocar).</p>
<p>Hoje, a casa da D. Emília e da Inês pertence a outra pessoa qualquer, que pôs uma antena parabólica da Meo no telhado. Os campos em redor da casa já não existem; a casa está agora no meio de duas urbanizações. E a terra da minha infância já não é uma aldeia, é quase uma cidade — cresceu.</p>
<p>Naquela Primavera, eu não desabrochei. Não cresci.</p>
<p>Fui semente que não germinou.</p>
<p>Naquela Primavera, eu não tive o meu primeiro beijo.</p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>As coisas que são de quem são</title>
		<link>http://www.rjcp.pt/diario/2011/11/as-coisas-que-sao-de-quem-sao/</link>
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		<pubDate>Thu, 24 Nov 2011 19:56:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>RJ Pinho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Expressão pessoal]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.rjcp.pt/?p=1333</guid>
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</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Há um certo investimento nas coisas, certas coisas, certos investimentos, emocionais, intelectuais, que as fazem, no fim, parte de alguém. São as coisas que mostram quem são de quem elas são, quem eram de quem elas eram. Um rato Logitech, azul e cinza, velho. Um afiador de lápis da Staedtler. O suporte de livros de madeira comprado no El Corte Inglés. Coisas, coisas em redor da pessoa — mesmo quando ela não está lá. Mesmo quando o dono das coisas não está, estão as coisas, e elas estão de tal forma e com tanto detalhe daquele a quem pertencem, que as coisas quase que <em>são</em>. Em alma, em espírito, em vida, as coisas. Quase que são a pessoa a quem pertencem.</p>
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</ol></p>]]></content:encoded>
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		<title>A esperança é uma faca de dois gumes</title>
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		<pubDate>Wed, 23 Nov 2011 13:54:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>RJ Pinho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Expressão pessoal]]></category>

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		<description><![CDATA[A esperança é aquilo que nos alenta. A esperança é aquilo que nos faz sofrer. Enquanto há vida, há esperança. Aquele que vive de esperança, morre de fome. A esperança é a última a morrer. A esperança é o pão &#8230; <a href="http://www.rjcp.pt/diario/2011/11/a-esperanca-e-uma-faca-de-dois-gumes/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A esperança é aquilo que nos alenta. A esperança é aquilo que nos faz sofrer.</p>
<p>Enquanto há vida, há esperança. Aquele que vive de esperança, morre de fome. A esperança é a última a morrer. A esperança é o pão dos pobres. Esperança não enche pança.</p>
<p>(E quem espera, sempre alcança, como quem espera, desespera).</p>
<p>A esperança é uma faca de dois gumes. Um pau de dois bicos. É remédio e é veneno.</p>
<p>A esperança tanto dá para um lado, como para o outro. Dá para os dois lados.</p>
<p>A esperança é uma bela treta.</p>
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</ol></p>]]></content:encoded>
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		<title>Contorno duma vida de papel</title>
		<link>http://www.rjcp.pt/diario/2011/11/duma-vida-de-papel/</link>
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		<pubDate>Wed, 23 Nov 2011 03:24:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>RJ Pinho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Expressão pessoal]]></category>

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		<description><![CDATA[Olho para todas as coisas que vejo, e tudo me parece uma imagem em papel vegetal. As pessoas são, estão, falam e andam à minha frente, em meu redor, por todo o lado, mas não me parecem suficientemente reais. Eu &#8230; <a href="http://www.rjcp.pt/diario/2011/11/duma-vida-de-papel/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Olho para todas as coisas que vejo, e tudo me parece uma imagem em papel vegetal.</p>
<p>As pessoas são, estão, falam e andam à minha frente, em meu redor, por todo o lado, mas não me parecem suficientemente reais. Eu não me sinto inteiramente real. Parece que estão todos a representar um papel. Papéis amarrotados.</p>
<p>Cada estado de alma questiona-me o outro. Não sei qual deles é real. Sinto-me a despegar do mundo. Cada surto é como cada vez que um post-it é descolado, e que adere cada vez menos de cada vez que volta a ser colado no mundo.</p>
<p>Na pré-primária havia uma ocupação de picotar uns desenhos sobre uma esponja. O contorno duma maçã, o contorno duma pessoa de braços abertos, coisas assim. É o que a escola, a universidade, as pessoas, todas as pessoas, me fizeram: recortaram-me do mundo. Agora as maçãs já não me parecem reais. O vento leva tudo. O vento leva post-its que já não colam. Leva picotados descartados até pelas crianças. Papéis amarrotados.</p>
<p>Esta vida de papel é duma personagem de que um escritor desistiu. Um escritor que pegou numa folha A4 com as minhas notas biográficas e que dela fez um barquinho de papel como se lembrou que fazia na sua infância, e na minha, e o largou num lago, no lago do seu jardim, onde ali ficou, ao vento, num lago pequenino, em pequenos redores, até ficar mole, de tempo, mole, o papel, mole, eu próprio.</p>
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		<title>O aspecto das pessoas feias</title>
		<link>http://www.rjcp.pt/diario/2011/11/o-aspecto-das-pessoas-feias/</link>
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		<pubDate>Tue, 22 Nov 2011 03:22:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>RJ Pinho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Expressão pessoal]]></category>

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		<description><![CDATA[As pessoas feias são felizes. As pessoas feias arranjam atestados médicos falsos. As pessoas feias jogam no Euromilhões. As pessoas feias usam um creme para o T facial, outro para o contorno dos olhos, e outro para o pescoço. As &#8230; <a href="http://www.rjcp.pt/diario/2011/11/o-aspecto-das-pessoas-feias/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>As pessoas feias são felizes. As pessoas feias arranjam atestados médicos falsos. As pessoas feias jogam no Euromilhões. As pessoas feias usam um creme para o T facial, outro para o contorno dos olhos, e outro para o pescoço. As pessoas feias não sabem escrever sem erros. As pessoas feias não saem com guarda-chuva quando chove, porque andar na rua com guarda-chuva não dá estilo nenhum. As pessoas feias dizem que não são racistas, mas são. As pessoas feias têm os dentes branqueados. As pessoas feias usam lentes de contacto, porque os óculos estragam a estética do rosto. As pessoas feias levam a mal que lhes digam «coitado». As pessoas feias compram livros para oferecer, porque não têm tempo para ler. As pessoas feias fazem implantes no cabelo. As pessoas feias têm um Mercedes porque é o que queriam ter quando eram pobres. As pessoas feias riem-se com piadas sobre estupidez, sexo, e estereótipos. As pessoas feias são feias a rirem-se. As pessoas feias gostam de comer. As pessoas feias têm o título académico gravado antes do nome no cartão de débito. As pessoas feias têm um clube de futebol e um partido político e são-lhes mais fiéis que a pessoas. As pessoas feias vêem o Telejornal todos os dias. As pessoas feias não doam dinheiro para coisa nenhuma. As pessoas feias têm muitas fotografias no Facebook. As pessoas feias respeitam as tradições. As pessoas feias compram óculos de sol com comparticipação médica, aldrabam a segurança social, e ainda se gabam de o fazer. As pessoas feias folheiam revistas cor-de-rosa. As pessoas feias gostam de beber álcool. As pessoas feias dizem que são católicas, e até se casam pela Igreja, mas não são. As pessoas feias vestem roupa de marca dos centros comerciais. As pessoas feias têm opiniões sobre tudo. As pessoas feias usam demasiada maquilhagem. As pessoas feias não seguram a porta do elevador para quem vem, para se irem embora mais depressa. As pessoas feias são rudes, e mandam porque estão a pagar. As pessoas feias só pensam nelas. As pessoas feias concordam com os seus superiores. As pessoas feias fazem de conta que não vêem. As pessoas feias não se comprometem com nada. As pessoas feias não sabem estar. As pessoas feias não sabem mastigar. As pessoas feias não têm nível. As pessoas feias não têm sonhos, têm desejos. As pessoas feias são imorais. As pessoas feias são más. As pessoas feias são básicas. As pessoas feias são estúpidas. As pessoas feias têm os seus filhos a ficarem feios como elas. As pessoas feias são todas iguais umas às outras. </p>
<p>As pessoas feias são feias por dentro, e isso vê-se por fora.</p>
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</ol></p>]]></content:encoded>
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		<title>Regresso ao meu futuro</title>
		<link>http://www.rjcp.pt/diario/2011/11/tempo-de-regressar/</link>
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		<pubDate>Mon, 21 Nov 2011 16:27:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>RJ Pinho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[O mostrador do meu carro diz-me 184 km/h mas o ecrã do GPS diz-me 178 km/h. Seja como for, é demasiado. Tirei o cinto de segurança, há bocado. Não me lembro de alguma vez ter conduzido tão depressa. Só consigo &#8230; <a href="http://www.rjcp.pt/diario/2011/11/tempo-de-regressar/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>O mostrador do meu carro diz-me 184 km/h mas o ecrã do GPS diz-me 178 km/h.  Seja como for, é demasiado. Tirei o cinto de segurança, há bocado. Não me lembro de alguma vez ter conduzido tão depressa. Só consigo pensar naquela, naquela— (como se chama ao amor da nossa vida quando deixa de o ser, assim tão de súbito?).</p>
<p>Nunca conheci o meu pai; morreu na Guerra do Ultramar. O meu pai cresceu sem conhecer o seu, que morreu de cancro (do pulmão? do intestino?) quando ele era pequeno. Por isso eu próprio também não conheci o meu avô paterno (acho que ele não morreu de cancro: tenho umas pistas que me levam a pensar que a minha avó o traiu, e que ele foi para o Brasil para nunca mais ninguém saber dele).</p>
<p>Eu não tenho filhos.</p>
<p>Por isso, não irão ter nada para relatar.</p>
<p>As desgraças da minha linhagem acabarão aqui, hoje, na A25.</p>
<p>Sem cinto de segurança, sinto-me a voar. Voo sobre os pinheiros, muitos pinheiros, por entre os pinheiros das montanhas nítidas (como hoje está um dia limpo, e como o meu pára-brisas também).</p>
<p>Quando cheguei ao apartamento dela, ela estava na sala, no sofá verde.</p>
<p>— O que foi, passou-se alguma coisa?</p>
<p>E então ela contou-me.</p>
<p>E a memória que tenho enquanto ela me contava é do meu cérebro, por dentro, a inchar. A arder. Um formigueiro por todo o cérebro, de artérias a derreter. O meu cérebro doía-me enquanto ela me contava que tem tido um caso com—. E ainda por cima eu sabia com quem antes dela me dizer, e nos últimos tempos eu tanto que desconfiava. Mas não, não podia deixar-me ceder pelo ciúme, porque eu e ela éramos diferentes das outras pessoas.</p>
<p>Comecei a namorar com a S. aos dezassete anos. Ela foi a minha primeira, e única. Ela não, era experiente. Num dia, tinha eu dezanove anos, ela vem-me visitar a Lisboa, quando eu lá estive uns meses a fazer formação (não tinha de ficar a dormir nas camaratas, se não quisesse, então aluguei um quarto). Eu dormi no chão, com um cobertor em cima de folhas de jornal, e dei-lhe a minha cama. Eu era assim.</p>
<p>Casámo-nos depois de eu vir da minha comissão em Timor.</p>
<p>E agora isto.</p>
<p>A estas rotações, o meu carro soa a um carro de rally.</p>
<p>Só me vêm imagens pornográficas à minha mente: até no sofá verde, no sofá verde onde ela me contou, a chorar— ela estava a usar rímel? Ela tinha posto rímel para que, quando chorasse à minha frente, se lhe desfizesse a figura, dando contraste à cena (porque drama é contraste), para que colorisse de luto as lágrimas, cliché de treta, e me aumentasse assim a impressão de estar a chorar, de estar mesmo arrependida. As artes do espectáculo, agora, ao alcance de todos.</p>
<p>Então dei aos vizinhos o melodrama mais banal, da televisão e de condomínio: gritei-lhe. Gritei-lhes. E vim para o carro. Para casa.</p>
<p>Para casa.</p>
<p>Quando eu era pequenino, o meu filme favorito (vi-o na cama dos meus pais, pela primeira vez, na televisão do quarto deles, que agora era só da minha mãe, num dia de Inverno) era o Regresso ao Futuro.</p>
<p>Pode ser que hoje, ao passar duma determinada velocidade por hora, o meu carro seja um DeLorean, e ele, e eu, desapareçamos, e que eu possa, eu próprio, regressar: ao meu tempo, qualquer um, porque não era este o meu futuro, a um tempo onde eu era pequenino, ou, se não der, onde não era nunca e onde não serei mais — o meu regresso, ao meu tempo.</p>
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		<title>A vida</title>
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		<pubDate>Sun, 20 Nov 2011 02:01:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>RJ Pinho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Expressão pessoal]]></category>

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