O mostrador do meu carro diz-me 184 km/h mas o ecrã do GPS diz-me 178 km/h. Seja como for, é demasiado. Tirei o cinto de segurança, há bocado. Não me lembro de alguma vez ter conduzido tão depressa. Só consigo pensar naquela, naquela— (como se chama ao amor da nossa vida quando deixa de o ser, assim tão de súbito?).
Nunca conheci o meu pai; morreu na Guerra do Ultramar. O meu pai cresceu sem conhecer o seu, que morreu de cancro (do pulmão? do intestino?) quando ele era pequeno. Por isso eu próprio também não conheci o meu avô paterno (acho que ele não morreu de cancro: tenho umas pistas que me levam a pensar que a minha avó o traiu, e que ele foi para o Brasil para nunca mais ninguém saber dele).
Eu não tenho filhos.
Por isso, não irão ter nada para relatar.
As desgraças da minha linhagem acabarão aqui, hoje, na A25.
Sem cinto de segurança, sinto-me a voar. Voo sobre os pinheiros, muitos pinheiros, por entre os pinheiros das montanhas nítidas (como hoje está um dia limpo, e como o meu pára-brisas também).
Quando cheguei ao apartamento dela, ela estava na sala, no sofá verde.
— O que foi, passou-se alguma coisa?
E então ela contou-me.
E a memória que tenho enquanto ela me contava é do meu cérebro, por dentro, a inchar. A arder. Um formigueiro por todo o cérebro, de artérias a derreter. O meu cérebro doía-me enquanto ela me contava que tem tido um caso com—. E ainda por cima eu sabia com quem antes dela me dizer, e nos últimos tempos eu tanto que desconfiava. Mas não, não podia deixar-me ceder pelo ciúme, porque eu e ela éramos diferentes das outras pessoas.
Comecei a namorar com a S. aos dezassete anos. Ela foi a minha primeira, e única. Ela não, era experiente. Num dia, tinha eu dezanove anos, ela vem-me visitar a Lisboa, quando eu lá estive uns meses a fazer formação (não tinha de ficar a dormir nas camaratas, se não quisesse, então aluguei um quarto). Eu dormi no chão, com um cobertor em cima de folhas de jornal, e dei-lhe a minha cama. Eu era assim.
Casámo-nos depois de eu vir da minha comissão em Timor.
E agora isto.
A estas rotações, o meu carro soa a um carro de rally.
Só me vêm imagens pornográficas à minha mente: até no sofá verde, no sofá verde onde ela me contou, a chorar— ela estava a usar rímel? Ela tinha posto rímel para que, quando chorasse à minha frente, se lhe desfizesse a figura, dando contraste à cena (porque drama é contraste), para que colorisse de luto as lágrimas, cliché de treta, e me aumentasse assim a impressão de estar a chorar, de estar mesmo arrependida. As artes do espectáculo, agora, ao alcance de todos.
Então dei aos vizinhos o melodrama mais banal, da televisão e de condomínio: gritei-lhe. Gritei-lhes. E vim para o carro. Para casa.
Para casa.
Quando eu era pequenino, o meu filme favorito (vi-o na cama dos meus pais, pela primeira vez, na televisão do quarto deles, que agora era só da minha mãe, num dia de Inverno) era o Regresso ao Futuro.
Pode ser que hoje, ao passar duma determinada velocidade por hora, o meu carro seja um DeLorean, e ele, e eu, desapareçamos, e que eu possa, eu próprio, regressar: ao meu tempo, qualquer um, porque não era este o meu futuro, a um tempo onde eu era pequenino, ou, se não der, onde não era nunca e onde não serei mais — o meu regresso, ao meu tempo.