Contorno duma vida de papel

Olho para todas as coisas que vejo, e tudo me parece uma imagem em papel vegetal.

As pessoas são, estão, falam e andam à minha frente, em meu redor, por todo o lado, mas não me parecem suficientemente reais. Eu não me sinto inteiramente real. Parece que estão todos a representar um papel. Papéis amarrotados.

Cada estado de alma questiona-me o outro. Não sei qual deles é real. Sinto-me a despegar do mundo. Cada surto é como cada vez que um post-it é descolado, e que adere cada vez menos de cada vez que volta a ser colado no mundo.

Na pré-primária havia uma ocupação de picotar uns desenhos sobre uma esponja. O contorno duma maçã, o contorno duma pessoa de braços abertos, coisas assim. É o que a escola, a universidade, as pessoas, todas as pessoas, me fizeram: recortaram-me do mundo. Agora as maçãs já não me parecem reais. O vento leva tudo. O vento leva post-its que já não colam. Leva picotados descartados até pelas crianças. Papéis amarrotados.

Esta vida de papel é duma personagem de que um escritor desistiu. Um escritor que pegou numa folha A4 com as minhas notas biográficas e que dela fez um barquinho de papel como se lembrou que fazia na sua infância, e na minha, e o largou num lago, no lago do seu jardim, onde ali ficou, ao vento, num lago pequenino, em pequenos redores, até ficar mole, de tempo, mole, o papel, mole, eu próprio.

O aspecto das pessoas feias

As pessoas feias são felizes. As pessoas feias arranjam atestados médicos falsos. As pessoas feias jogam no Euromilhões. As pessoas feias usam um creme para o T facial, outro para o contorno dos olhos, e outro para o pescoço. As pessoas feias não sabem escrever sem erros. As pessoas feias não saem com guarda-chuva quando chove, porque andar na rua com guarda-chuva não dá estilo nenhum. As pessoas feias dizem que não são racistas, mas são. As pessoas feias têm os dentes branqueados. As pessoas feias usam lentes de contacto, porque os óculos estragam a estética do rosto. As pessoas feias levam a mal que lhes digam «coitado». As pessoas feias compram livros para oferecer, porque não têm tempo para ler. As pessoas feias fazem implantes no cabelo. As pessoas feias têm um Mercedes porque é o que queriam ter quando eram pobres. As pessoas feias riem-se com piadas sobre estupidez, sexo, e estereótipos. As pessoas feias são feias a rirem-se. As pessoas feias gostam de comer. As pessoas feias têm o título académico gravado antes do nome no cartão de débito. As pessoas feias têm um clube de futebol e um partido político e são-lhes mais fiéis que a pessoas. As pessoas feias vêem o Telejornal todos os dias. As pessoas feias não doam dinheiro para coisa nenhuma. As pessoas feias têm muitas fotografias no Facebook. As pessoas feias respeitam as tradições. As pessoas feias compram óculos de sol com comparticipação médica, aldrabam a segurança social, e ainda se gabam de o fazer. As pessoas feias folheiam revistas cor-de-rosa. As pessoas feias gostam de beber álcool. As pessoas feias dizem que são católicas, e até se casam pela Igreja, mas não são. As pessoas feias vestem roupa de marca dos centros comerciais. As pessoas feias têm opiniões sobre tudo. As pessoas feias usam demasiada maquilhagem. As pessoas feias não seguram a porta do elevador para quem vem, para se irem embora mais depressa. As pessoas feias são rudes, e mandam porque estão a pagar. As pessoas feias só pensam nelas. As pessoas feias concordam com os seus superiores. As pessoas feias fazem de conta que não vêem. As pessoas feias não se comprometem com nada. As pessoas feias não sabem estar. As pessoas feias não sabem mastigar. As pessoas feias não têm nível. As pessoas feias não têm sonhos, têm desejos. As pessoas feias são imorais. As pessoas feias são más. As pessoas feias são básicas. As pessoas feias são estúpidas. As pessoas feias têm os seus filhos a ficarem feios como elas. As pessoas feias são todas iguais umas às outras.

As pessoas feias são feias por dentro, e isso vê-se por fora.

Regresso ao meu futuro

O mostrador do meu carro diz-me 184 km/h mas o ecrã do GPS diz-me 178 km/h. Seja como for, é demasiado. Tirei o cinto de segurança, há bocado. Não me lembro de alguma vez ter conduzido tão depressa. Só consigo pensar naquela, naquela— (como se chama ao amor da nossa vida quando deixa de o ser, assim tão de súbito?).

Nunca conheci o meu pai; morreu na Guerra do Ultramar. O meu pai cresceu sem conhecer o seu, que morreu de cancro (do pulmão? do intestino?) quando ele era pequeno. Por isso eu próprio também não conheci o meu avô paterno (acho que ele não morreu de cancro: tenho umas pistas que me levam a pensar que a minha avó o traiu, e que ele foi para o Brasil para nunca mais ninguém saber dele).

Eu não tenho filhos.

Por isso, não irão ter nada para relatar.

As desgraças da minha linhagem acabarão aqui, hoje, na A25.

Sem cinto de segurança, sinto-me a voar. Voo sobre os pinheiros, muitos pinheiros, por entre os pinheiros das montanhas nítidas (como hoje está um dia limpo, e como o meu pára-brisas também).

Quando cheguei ao apartamento dela, ela estava na sala, no sofá verde.

— O que foi, passou-se alguma coisa?

E então ela contou-me.

E a memória que tenho enquanto ela me contava é do meu cérebro, por dentro, a inchar. A arder. Um formigueiro por todo o cérebro, de artérias a derreter. O meu cérebro doía-me enquanto ela me contava que tem tido um caso com—. E ainda por cima eu sabia com quem antes dela me dizer, e nos últimos tempos eu tanto que desconfiava. Mas não, não podia deixar-me ceder pelo ciúme, porque eu e ela éramos diferentes das outras pessoas.

Comecei a namorar com a S. aos dezassete anos. Ela foi a minha primeira, e única. Ela não, era experiente. Num dia, tinha eu dezanove anos, ela vem-me visitar a Lisboa, quando eu lá estive uns meses a fazer formação (não tinha de ficar a dormir nas camaratas, se não quisesse, então aluguei um quarto). Eu dormi no chão, com um cobertor em cima de folhas de jornal, e dei-lhe a minha cama. Eu era assim.

Casámo-nos depois de eu vir da minha comissão em Timor.

E agora isto.

A estas rotações, o meu carro soa a um carro de rally.

Só me vêm imagens pornográficas à minha mente: até no sofá verde, no sofá verde onde ela me contou, a chorar— ela estava a usar rímel? Ela tinha posto rímel para que, quando chorasse à minha frente, se lhe desfizesse a figura, dando contraste à cena (porque drama é contraste), para que colorisse de luto as lágrimas, cliché de treta, e me aumentasse assim a impressão de estar a chorar, de estar mesmo arrependida. As artes do espectáculo, agora, ao alcance de todos.

Então dei aos vizinhos o melodrama mais banal, da televisão e de condomínio: gritei-lhe. Gritei-lhes. E vim para o carro. Para casa.

Para casa.

Quando eu era pequenino, o meu filme favorito (vi-o na cama dos meus pais, pela primeira vez, na televisão do quarto deles, que agora era só da minha mãe, num dia de Inverno) era o Regresso ao Futuro.

Pode ser que hoje, ao passar duma determinada velocidade por hora, o meu carro seja um DeLorean, e ele, e eu, desapareçamos, e que eu possa, eu próprio, regressar: ao meu tempo, qualquer um, porque não era este o meu futuro, a um tempo onde eu era pequenino, ou, se não der, onde não era nunca e onde não serei mais — o meu regresso, ao meu tempo.

Cenas dum resto de memória

Regresso a Londres. A minha fama há muito que havia sido exportada. Espero junto do calor da locomotiva, enquanto não me habituo a este Inverno. Ficaram de me vir buscar, mas pontualidade britânica nem vê-la. Há figurantes por toda a plataforma.

* * *

Subo à esquadra. Dentro do gabinete do chief está lá alguém que, sabendo que cheguei, sai por outra porta. O chief dá-me o briefing.

(…)

À saída, na rua, esperava-me um velho de colete de cabedal. Era americano, e acho que disse que era sheriff. Não sei, parecia-me demasiado velho. Velho demais. «Are you kidding me? They made a movie about you!» — isto nem sei sequer se fui eu que lhe disse a ele ou ele a mim.

* * *

Um pub, vazio. Perdi-me e, quando lá cheguei, estava fechado. Bati à janela, a ver se por acaso os empregados me deixariam entrar. Expliquei que tinha ficado de me encontrar com uma pessoa lá. O pub estava fechado, disseram-me todos os empregados, porque estavam todos junto à porta para me ouvirem a explicar que era dum assunto tão sério, mas que não podia dizer, que a pessoa poderia ter pedido para ficar após a hora do fecho para se encontrar comigo. Eles lamentam, contendo curiosidade; eu agradeço.

Olho a fachada do pub, numa esquina. Olho para as letras pintadas de branco numa tábua de madeira, e faço força para não me esquecer do nome. O pub chamava-se Bartholomew qualquer coisa, mas agora só me vem à memória aquele sítio que vende ginginha em Lisboa.

O dossier de investigação que tenho parecem-me páginas soltas dum argumento. Não, isto não pode ser. A investigação é um sonho. Estou preso dentro dum sonho. Ou doutra coisa. A minha investigação é encontrar o resto da minha memória, encontrar o meu enredo, encontrar o nome da minha personagem. Isto não é real, pelo menos não parece. Mas é tudo tão real.

Uma corrida contra o tempo, esta. Antes que o sonho acabe, ou antes que o filme acabe, porque não sei se estou num ou noutro, ou antes que a vida, que nem sei se é real, sei lá. Encontrar a minha memória antes que ela acabe, para que, ao ver-me novamente inteiro na memória, possa acabar inteiro. Um plano geral, nítido, só isso, e um fade out.

Porque estragar a orelha do menino?

Olha ao espelho e vê (de súbito, pela primeira vez — mas claro que não é a primeira vez) a sua orelha. Tem outra, do outro lado, a direita. Ambas, ainda, tão novas; ele, mais velho. Mas esta, a esquerda, lembra-se agora (de súbito, pela primeira vez — mesmo pela primeira vez) de ter sido torcida e puxada com violência, um dia, pela D. Helena, professora primária.

Doeu-lhe tanto, aquela dor que não se parecia com nada (bizarra, a ideia de sofrer dor porque a orelha lhe é puxada). E o que fazer, o terror, o que fazer?, lembrou-se (de súbito, daquela vez), se se haveria de levantar da cadeira para atenuar a dor, ou deixar-se sentado e sofrer com honra, como se uma criancinha devesse ter honra, e mostrando à professora que sofreu, acabar depressa com a dor e o terror da desfiguração, o terror— da mutilação?

O que ele, pequenino, poderia ter feito para que uma senhora robusta, grande, pudesse achar que a justa punição fosse atacar, destruir, a perfeição — a beleza de todas as coisas infantis — puxando, torcendo, com força, muita força, a orelha duma criança?

O rumo do rio que nos leva

O sofrimento de quem se sente sem rumo é de quem não vê que o caminho não é de terra, mas de água. Não somos nós que percorremos a vida, mas ela que nos leva, em cima dela, umas vezes a flutuar, outras a ameaçar agarrar-nos debaixo, desde a nascente, por entre vaus e talvegues, e, às vezes, quedas de água, sei lá (porque não vi tudo), e outras metáforas assim, até ao fim. Por isso, mesmo sem rumo, nosso, o Tempo leva-nos, empurra-nos para a única direcção possível, em frente. Não há nada a fazer quanto a isso; só enquanto isso. A única falha possível, se quisermos achar que falhámos, é o arrependimento, mais à frente, de não ter remado — ou nadado, quando somos só nós, sem mais nada, nós e o tempo, e o mundo, e os outros, sem os outros, só nós, sem mais nada, quando quase sem nós —, aqui e ali, um pouco mais para a esquerda, aqui e acolá, à direita, ou, noutros sítios, de não ter confiado na corrente e olhado a paisagem. Mas quando chegar ao fim, nada disto importará: ficará só o sal dos arrependimentos, e das dores e das mágoas, oceanos de almas caídas, e do princípio começarão a cada instante, constantemente renovado, outras, de nascentes de sonhos de vidas doces. Almas puras, feitas de água; vidas durante, feitas de rio.

O engenhoso arroz do Conde de Cabidela

Quis o Conde de Cabidela reunir, naquele primeiro dia de Inverno, os mais distintos da corte real portuguesa para que pudessem, depois dum passeio montado por entre as mais serenas maravilhas daquele condado, abrir a estação pela digestão dum repasto de sua feitura.

Nobres, clérigos, e distintos fidalgos atenderam ao jantar, particularmente antecipado pela reputa gastronómica das ceias com que o Conde de Cabidela agraciava os seus convidados.

Primeiro, serviu-se o prato de peixe. Os convidados maravilharam-se particularmente com o fino balanço entre o sabor do lombo do robalo, do salgado que se lhe juraria ser de maresia e não de cozinha, e da subtil e contida mistura de especiarias: muito à excepção dos exibicionismos cometidos nos comeres portugueses daquela época.

Então após o peixe, o Conde de Cabidela convoca a atenção de todos:

— «Concebi, especialmente para hoje, um prato inteiramente novo».

Os criados trazem, para cada convidado, num prato de rebordos elevados como os de sopa, algo de aroma pungente e cor nunca antes vista.

Como um caldo, arroz nadava solto, entre lascas de carne de frango, num aquoso castanho escuro.

— «Sangue, não sarrabulho», explicou o Conde. «Trata-se de sangue mantido líquido por um processo muito natural».

Então os convidados torceram o nariz. Primeiro, ao sangue. Depois, ao saber do processo, ao vinagre.

O sangue ainda passaria. Mas vinagre?, vinagre era o que os pobres deitavam na comida para disfarçar o sabor da putrefacção.

Desde aquele serão, nunca mais se ouviu falar do Conde de Cabidela. Tomaram-no por ter caído na senescência ou, pior, no gosto popular.

A verdade é que, hoje em dia, o arroz de cabidela é um dos pratos portugueses mais apreciados pelas famílias em noites de Inverno.

O homem do semáforo

Paragem cardiorrespiratória agora mesmo, ao começo dos trinta e poucos anos. O semáforo fica verde para os peões. O mundo ilumina-se de repente, como num flash que fixa uma fotografia. O Estádio do Dragão, o céu azul, não um azul vivo mas um azul esbranquiçado, com nuvens caídas, no sítio errado, e um traço de avião já há tempo a mais a desfazer-se. Dali a um minuto, ao contornar um pouco do estádio, ele estaria a entrar na estação de metropolitano do Estádio do Dragão; porquê, se não anda mais de metro? O seu carro, estacionado atrás de si. A estação, queria ir à estação de metro, apanhar as memórias. Esteve naquela estação, começo e fim de linha, quando era feliz, ia e vinha dali, com ela, nos bancos de plástico cinza e tecido azul, inocentes passageiros, anónimos, encantados de amor, juventude e felicidade, e toda a gente da carruagem sabia que eram namorados porque irradiavam toda a bondade do mundo.

A estação do Estádio do Dragão é uma caixa de vidro, e a luz do Sol que entra divide-se em vislumbres de espaço e de tempo: os outros portais sentem-se na pele, fotões que sabem tudo, como a estação da Trindade (do nome da Santíssima Trindade, que não os abençoou), e da Casa da Música, outra caixa, de música, de memórias, de passagem, de—. Aquele som da campainha que o Metro do Porto faz antes de arrancar, um trrim de campainha antiga num metro moderno, transformava uma mera viagem de metro numa volta na Feira Popular, onde ele nunca esteve (como uma viagem de metro com o precioso achado do amor poderia ser «mera»?): nunca foi criança, nunca esteve numa feira de diversão, nunca teve afecto nenhum, quanto mais deste. E agora tinha tudo, e era humano, e era, ele, ali, todo afecto.

O peão verde do semáforo continua verde. Do fundo, ao longe, vê-a vir da estação, mais nova, como era há anos, a vir, feliz, com uma muleta de alumínio. Como até a muleta a fazia bonita. O sorriso fazia-lhe o cabelo flutuar com cada passo, toda ela leveza que tornava o tornozelo que recuperava mais leve também. Mas já não existe nada. Ela não está ali. Só o peão verde, e mais ninguém, agora. Nada se move. Só a dor da estação, a estação no seu peito, que não voltará a ver.

O semáforo tem um apitar fino, o apitar contínuo dum monitor cardíaco. Tudo liso, numa memória, agora, lisa.