Cenas dum resto de memória

Regresso a Londres. A minha fama há muito que havia sido exportada. Espero junto do calor da locomotiva, enquanto não me habituo a este Inverno. Ficaram de me vir buscar, mas pontualidade britânica nem vê-la. Há figurantes por toda a plataforma.

* * *

Subo à esquadra. Dentro do gabinete do chief está lá alguém que, sabendo que cheguei, sai por outra porta. O chief dá-me o briefing.

(…)

À saída, na rua, esperava-me um velho de colete de cabedal. Era americano, e acho que disse que era sheriff. Não sei, parecia-me demasiado velho. Velho demais. «Are you kidding me? They made a movie about you!» — isto nem sei sequer se fui eu que lhe disse a ele ou ele a mim.

* * *

Um pub, vazio. Perdi-me e, quando lá cheguei, estava fechado. Bati à janela, a ver se por acaso os empregados me deixariam entrar. Expliquei que tinha ficado de me encontrar com uma pessoa lá. O pub estava fechado, disseram-me todos os empregados, porque estavam todos junto à porta para me ouvirem a explicar que era dum assunto tão sério, mas que não podia dizer, que a pessoa poderia ter pedido para ficar após a hora do fecho para se encontrar comigo. Eles lamentam, contendo curiosidade; eu agradeço.

Olho a fachada do pub, numa esquina. Olho para as letras pintadas de branco numa tábua de madeira, e faço força para não me esquecer do nome. O pub chamava-se Bartholomew qualquer coisa, mas agora só me vem à memória aquele sítio que vende ginginha em Lisboa.

O dossier de investigação que tenho parecem-me páginas soltas dum argumento. Não, isto não pode ser. A investigação é um sonho. Estou preso dentro dum sonho. Ou doutra coisa. A minha investigação é encontrar o resto da minha memória, encontrar o meu enredo, encontrar o nome da minha personagem. Isto não é real, pelo menos não parece. Mas é tudo tão real.

Uma corrida contra o tempo, esta. Antes que o sonho acabe, ou antes que o filme acabe, porque não sei se estou num ou noutro, ou antes que a vida, que nem sei se é real, sei lá. Encontrar a minha memória antes que ela acabe, para que, ao ver-me novamente inteiro na memória, possa acabar inteiro. Um plano geral, nítido, só isso, e um fade out.

Porque estragar a orelha do menino?

Olha ao espelho e vê (de súbito, pela primeira vez — mas claro que não é a primeira vez) a sua orelha. Tem outra, do outro lado, a direita. Ambas, ainda, tão novas; ele, mais velho. Mas esta, a esquerda, lembra-se agora (de súbito, pela primeira vez — mesmo pela primeira vez) de ter sido torcida e puxada com violência, um dia, pela D. Helena, professora primária.

Doeu-lhe tanto, aquela dor que não se parecia com nada (bizarra, a ideia de sofrer dor porque a orelha lhe é puxada). E o que fazer, o terror, o que fazer?, lembrou-se (de súbito, daquela vez), se se haveria de levantar da cadeira para atenuar a dor, ou deixar-se sentado e sofrer com honra, como se uma criancinha devesse ter honra, e mostrando à professora que sofreu, acabar depressa com a dor e o terror da desfiguração, o terror— da mutilação?

O que ele, pequenino, poderia ter feito para que uma senhora robusta, grande, pudesse achar que a justa punição fosse atacar, destruir, a perfeição — a beleza de todas as coisas infantis — puxando, torcendo, com força, muita força, a orelha duma criança?

O rumo do rio que nos leva

O sofrimento de quem se sente sem rumo é de quem não vê que o caminho não é de terra, mas de água. Não somos nós que percorremos a vida, mas ela que nos leva, em cima dela, umas vezes a flutuar, outras a ameaçar agarrar-nos debaixo, desde a nascente, por entre vaus e talvegues, e, às vezes, quedas de água, sei lá (porque não vi tudo), e outras metáforas assim, até ao fim. Por isso, mesmo sem rumo, nosso, o Tempo leva-nos, empurra-nos para a única direcção possível, em frente. Não há nada a fazer quanto a isso; só enquanto isso. A única falha possível, se quisermos achar que falhámos, é o arrependimento, mais à frente, de não ter remado — ou nadado, quando somos só nós, sem mais nada, nós e o tempo, e o mundo, e os outros, sem os outros, só nós, sem mais nada, quando quase sem nós —, aqui e ali, um pouco mais para a esquerda, aqui e acolá, à direita, ou, noutros sítios, de não ter confiado na corrente e olhado a paisagem. Mas quando chegar ao fim, nada disto importará: ficará só o sal dos arrependimentos, e das dores e das mágoas, oceanos de almas caídas, e do princípio começarão a cada instante, constantemente renovado, outras, de nascentes de sonhos de vidas doces. Almas puras, feitas de água; vidas durante, feitas de rio.

O engenhoso arroz do Conde de Cabidela

Quis o Conde de Cabidela reunir, naquele primeiro dia de Inverno, os mais distintos da corte real portuguesa para que pudessem, depois dum passeio montado por entre as mais serenas maravilhas daquele condado, abrir a estação pela digestão dum repasto de sua feitura.

Nobres, clérigos, e distintos fidalgos atenderam ao jantar, particularmente antecipado pela reputa gastronómica das ceias com que o Conde de Cabidela agraciava os seus convidados.

Primeiro, serviu-se o prato de peixe. Os convidados maravilharam-se particularmente com o fino balanço entre o sabor do lombo do robalo, do salgado que se lhe juraria ser de maresia e não de cozinha, e da subtil e contida mistura de especiarias: muito à excepção dos exibicionismos cometidos nos comeres portugueses daquela época.

Então após o peixe, o Conde de Cabidela convoca a atenção de todos:

— «Concebi, especialmente para hoje, um prato inteiramente novo».

Os criados trazem, para cada convidado, num prato de rebordos elevados como os de sopa, algo de aroma pungente e cor nunca antes vista.

Como um caldo, arroz nadava solto, entre lascas de carne de frango, num aquoso castanho escuro.

— «Sangue, não sarrabulho», explicou o Conde. «Trata-se de sangue mantido líquido por um processo muito natural».

Então os convidados torceram o nariz. Primeiro, ao sangue. Depois, ao saber do processo, ao vinagre.

O sangue ainda passaria. Mas vinagre?, vinagre era o que os pobres deitavam na comida para disfarçar o sabor da putrefacção.

Desde aquele serão, nunca mais se ouviu falar do Conde de Cabidela. Tomaram-no por ter caído na senescência ou, pior, no gosto popular.

A verdade é que, hoje em dia, o arroz de cabidela é um dos pratos portugueses mais apreciados pelas famílias em noites de Inverno.

O homem do semáforo

Paragem cardiorrespiratória agora mesmo, ao começo dos trinta e poucos anos. O semáforo fica verde para os peões. O mundo ilumina-se de repente, como num flash que fixa uma fotografia. O Estádio do Dragão, o céu azul, não um azul vivo mas um azul esbranquiçado, com nuvens caídas, no sítio errado, e um traço de avião já há tempo a mais a desfazer-se. Dali a um minuto, ao contornar um pouco do estádio, ele estaria a entrar na estação de metropolitano do Estádio do Dragão; porquê, se não anda mais de metro? O seu carro, estacionado atrás de si. A estação, queria ir à estação de metro, apanhar as memórias. Esteve naquela estação, começo e fim de linha, quando era feliz, ia e vinha dali, com ela, nos bancos de plástico cinza e tecido azul, inocentes passageiros, anónimos, encantados de amor, juventude e felicidade, e toda a gente da carruagem sabia que eram namorados porque irradiavam toda a bondade do mundo.

A estação do Estádio do Dragão é uma caixa de vidro, e a luz do Sol que entra divide-se em vislumbres de espaço e de tempo: os outros portais sentem-se na pele, fotões que sabem tudo, como a estação da Trindade (do nome da Santíssima Trindade, que não os abençoou), e da Casa da Música, outra caixa, de música, de memórias, de passagem, de—. Aquele som da campainha que o Metro do Porto faz antes de arrancar, um trrim de campainha antiga num metro moderno, transformava uma mera viagem de metro numa volta na Feira Popular, onde ele nunca esteve (como uma viagem de metro com o precioso achado do amor poderia ser «mera»?): nunca foi criança, nunca esteve numa feira de diversão, nunca teve afecto nenhum, quanto mais deste. E agora tinha tudo, e era humano, e era, ele, ali, todo afecto.

O peão verde do semáforo continua verde. Do fundo, ao longe, vê-a vir da estação, mais nova, como era há anos, a vir, feliz, com uma muleta de alumínio. Como até a muleta a fazia bonita. O sorriso fazia-lhe o cabelo flutuar com cada passo, toda ela leveza que tornava o tornozelo que recuperava mais leve também. Mas já não existe nada. Ela não está ali. Só o peão verde, e mais ninguém, agora. Nada se move. Só a dor da estação, a estação no seu peito, que não voltará a ver.

O semáforo tem um apitar fino, o apitar contínuo dum monitor cardíaco. Tudo liso, numa memória, agora, lisa.

Como ter classe

Para ter classe, deve-se rir como quem não acha graça mas faça questão em que toda a gente note que riu. Deve-se comer como quem não tem fome, porque a fome é coisa de gente pobre. Elogiar, como quem o faz por protocolo. Cumprimentar um amigo como um político cumprimenta efusivamente um desconhecido em época de eleições.

Ser-se com classe é o contrário de ser poeta: é fingir não sentir aquilo que deveras sente.

As minhas opiniões sobre coisas importantes

A crise. Isto não tem jeito nenhum, e ao ritmo que a coisa está, isto qualquer dia não sei como vai acabar. Pedro Passos Coelho não sei quê que não me parece bem. A troika. Tem de ser. Ontem vi no Telejornal que a coisa vai piorar, e eu assim não sei, pá. É preciso repensar as políticas. A esquerda coiso. O capitalismo. Tenho a mesma opinião que o Marcelo Rebelo de Sousa sobre os aspectos partidários desta semana.

O Jorge Jesus. Acho que Portugal vai passar, mas depois é preciso concentrar no grande jogo. A Federação Portuguesa de Futebol. A arbitragem. Paulo Bento tem mostrado valor, mas falta-lhe humildade. O meu Benfica. O Porto. Balneários, e treinos à porta fechada.

Sexo.

A praia do regresso

Desligou o carro. O sussurrar nocturno do mar entrava enfraquecido pelos vidros fechados. Ouvia o seu próprio respirar, pelas narinas quentes. O som do nada era vivo.

No porta-copos do carro uma garrafa de Aquarius. Aquela garrafa continha o peso de toda uma vida passada. Ele olhava para a garrafa, triste. Vinham-lhe à memória imagens do seu passado: de repente, um dia de sol em que passeava pelo viaduto de grades vermelhas que ia dar à casa dela, noutros repentes, outras memórias; muitas, brilhantes na memória, mas frias na tristeza. As imagens que o seu cérebro lhe dava para lhe apelarem à sobrevivência eram as mesmas que lhe causavam a vontade de partir.

Antes de sair de casa, ele havia dissolvido 2.000mg de comprimidos de metadona na garrafa de Aquarius. Não queria sentir o sabor particular do opóide em água mineral. No bolso da camisa, tinha uma espécie de testamento que havia imprimido em casa, dobrado em volta do seu Cartão de Cidadão. Não levaria carteira nem nada nos bolsos. Só o cartão para a polícia o identificar, e umas disposições testamentais vitais, de não reanimação, e recusa de cerimónia religiosa, nada inesperado, nada ali de fora do comum.

Deixou as chaves no porta-luvas do carro. O som do porta-luvas a fechar soou-lhe muito bom, muito quentinho. Tinha de afastar a percepção desses prazeres da cognição, não queria reparar nos prazeres de estar vivo. Não. É só uma tampa de plástico dum carro de metal.

Tirou os sapatos. Deixou-os pelos pedais do carro. Tirou as meias. Pegou na garrafa, e inspirou coragem para abrir a porta do carro.

O som do mar era agora cheio, rico. Esteve calor durante o dia, mas agora vinha-lhe uma brisa gelada, a fazer sintonia com o gelo que sentia dentro do estômago. A mão com a garrafa ameaçava largá-la. Não podia, aquilo custou muito dinheiro e coragem preparar.

Caminhou sobre o cimento do passeio, descalço. Por esta hora, já pouca gente estava na Foz. Ouvia os seus passos enterrarem-se na areia. O som do mar soava-lhe ao Universo. Caminhava em direcção a uns rochedos, voltados para o mar.

Aqui, nestes, em cima dumas toalhas, uns jovens namorados. Vê-los, magoou-lhe precisamente. Adiante, outro rochedo. Este, sem ninguém.

Sentou-se. Frio. Duro. Molhado. O desconforto do momento final, incomodava-o. Entrou-lhe areia pela parte de trás das calças. Não importa. Garrafa.

Abriu a tampa. Teve medo de ter reflexo de regurgitação. Parou, concentrou-se que era para beber tudo duma vez. Um só suspiro, e bebeu tudo duma vez.

Pronto.

Estava calmo. Estava? Estava.

Estava.

Atirou a garrafa para longe. Podia ser que o vento a levasse para ainda mais longe, apagando o último traço do seu gesto suicida.

Agora só teria de esperar uns minutos. Ele havia lido que não haveria de sofrer, que se apagaria tudo, e que a dose estaria para lá da recuperação possível.

— Tiago! Tiago!?

Era ela. Não era imaginação, era ela. Ela foi ali ter. Ela deve ter entrado no apartamento cedo demais. O telemóvel não estava com ele, deixou-o em casa, se calhar cheio de chamadas por atender. Ela deve ter desconfiado. Ela desconfiou. Ela estava agora ali, à procura dele.

— Tiago!?

Como poderia ela ter tanta certeza que ele estaria na praia, ali? Mas teve, e estava. Ele começou a comover-se; isto não deveria acontecer.

Ela encontrou-o deitado, a respirar comoção contida.

Ele olhou para ela, e ela viu-lhe a despedida nos olhos.

Ela ia-lhe perguntar se ele já ingeriu— mas ela não perguntou porque já sabia que sim, e não queria ouvir a resposta, e deixou-se cair de joelhos e pegou-lhe na cara e queria que ele lhe respondesse que não, mas era a cara de quem já partia.

Ela não consegue encontrar o seu telemóvel. Não sabe se há-de olhar para dentro da carteira, ou se nunca tirar os olhos dele, para que não lhe perca um segundo de vida. Apetece-lhe rasgar a carteira toda. O telemóvel na mão agora parece-lhe que tem biliões de botões, e não consegue sequer marcar o 112 de tanto lhe tremem as mãos na porcaria do teclado qwerty.

Ele ainda está neste mundo. Com a mão, deita-lhe o telemóvel à areia.

— Não adianta, já não vai a tempo… é irrever… sível.

Com o braço, convida-a a abraçar-se a ele sobre o seu peito.

Ela cai sobre ele, chora. A sua boca deformada, de não saber como chorar nesta situação, não nesta situação. Isto não. Isto não sabia chorar. Isto não podia estar a acontecer.

Sobre o seu peito, ele sente o calor dela a saber-lhe a vida.

Apaga-se, devagar, a dor e a luz e o amor e tudo o que foi.

— Eu amei-te — ficou dito no pensamento.

O fim duma história triste, mas banal, sem virtude, nem nada, a que ninguém ligará nenhuma.

Uma história pateta.