Desligou o carro. O sussurrar nocturno do mar entrava enfraquecido pelos vidros fechados. Ouvia o seu próprio respirar, pelas narinas quentes. O som do nada era vivo.
No porta-copos do carro uma garrafa de Aquarius. Aquela garrafa continha o peso de toda uma vida passada. Ele olhava para a garrafa, triste. Vinham-lhe à memória imagens do seu passado: de repente, um dia de sol em que passeava pelo viaduto de grades vermelhas que ia dar à casa dela, noutros repentes, outras memórias; muitas, brilhantes na memória, mas frias na tristeza. As imagens que o seu cérebro lhe dava para lhe apelarem à sobrevivência eram as mesmas que lhe causavam a vontade de partir.
Antes de sair de casa, ele havia dissolvido 2.000mg de comprimidos de metadona na garrafa de Aquarius. Não queria sentir o sabor particular do opóide em água mineral. No bolso da camisa, tinha uma espécie de testamento que havia imprimido em casa, dobrado em volta do seu Cartão de Cidadão. Não levaria carteira nem nada nos bolsos. Só o cartão para a polícia o identificar, e umas disposições testamentais vitais, de não reanimação, e recusa de cerimónia religiosa, nada inesperado, nada ali de fora do comum.
Deixou as chaves no porta-luvas do carro. O som do porta-luvas a fechar soou-lhe muito bom, muito quentinho. Tinha de afastar a percepção desses prazeres da cognição, não queria reparar nos prazeres de estar vivo. Não. É só uma tampa de plástico dum carro de metal.
Tirou os sapatos. Deixou-os pelos pedais do carro. Tirou as meias. Pegou na garrafa, e inspirou coragem para abrir a porta do carro.
O som do mar era agora cheio, rico. Esteve calor durante o dia, mas agora vinha-lhe uma brisa gelada, a fazer sintonia com o gelo que sentia dentro do estômago. A mão com a garrafa ameaçava largá-la. Não podia, aquilo custou muito dinheiro e coragem preparar.
Caminhou sobre o cimento do passeio, descalço. Por esta hora, já pouca gente estava na Foz. Ouvia os seus passos enterrarem-se na areia. O som do mar soava-lhe ao Universo. Caminhava em direcção a uns rochedos, voltados para o mar.
Aqui, nestes, em cima dumas toalhas, uns jovens namorados. Vê-los, magoou-lhe precisamente. Adiante, outro rochedo. Este, sem ninguém.
Sentou-se. Frio. Duro. Molhado. O desconforto do momento final, incomodava-o. Entrou-lhe areia pela parte de trás das calças. Não importa. Garrafa.
Abriu a tampa. Teve medo de ter reflexo de regurgitação. Parou, concentrou-se que era para beber tudo duma vez. Um só suspiro, e bebeu tudo duma vez.
Pronto.
Estava calmo. Estava? Estava.
Estava.
Atirou a garrafa para longe. Podia ser que o vento a levasse para ainda mais longe, apagando o último traço do seu gesto suicida.
Agora só teria de esperar uns minutos. Ele havia lido que não haveria de sofrer, que se apagaria tudo, e que a dose estaria para lá da recuperação possível.
— Tiago! Tiago!?
Era ela. Não era imaginação, era ela. Ela foi ali ter. Ela deve ter entrado no apartamento cedo demais. O telemóvel não estava com ele, deixou-o em casa, se calhar cheio de chamadas por atender. Ela deve ter desconfiado. Ela desconfiou. Ela estava agora ali, à procura dele.
— Tiago!?
Como poderia ela ter tanta certeza que ele estaria na praia, ali? Mas teve, e estava. Ele começou a comover-se; isto não deveria acontecer.
Ela encontrou-o deitado, a respirar comoção contida.
Ele olhou para ela, e ela viu-lhe a despedida nos olhos.
Ela ia-lhe perguntar se ele já ingeriu— mas ela não perguntou porque já sabia que sim, e não queria ouvir a resposta, e deixou-se cair de joelhos e pegou-lhe na cara e queria que ele lhe respondesse que não, mas era a cara de quem já partia.
Ela não consegue encontrar o seu telemóvel. Não sabe se há-de olhar para dentro da carteira, ou se nunca tirar os olhos dele, para que não lhe perca um segundo de vida. Apetece-lhe rasgar a carteira toda. O telemóvel na mão agora parece-lhe que tem biliões de botões, e não consegue sequer marcar o 112 de tanto lhe tremem as mãos na porcaria do teclado qwerty.
Ele ainda está neste mundo. Com a mão, deita-lhe o telemóvel à areia.
— Não adianta, já não vai a tempo… é irrever… sível.
Com o braço, convida-a a abraçar-se a ele sobre o seu peito.
Ela cai sobre ele, chora. A sua boca deformada, de não saber como chorar nesta situação, não nesta situação. Isto não. Isto não sabia chorar. Isto não podia estar a acontecer.
Sobre o seu peito, ele sente o calor dela a saber-lhe a vida.
Apaga-se, devagar, a dor e a luz e o amor e tudo o que foi.
— Eu amei-te — ficou dito no pensamento.
O fim duma história triste, mas banal, sem virtude, nem nada, a que ninguém ligará nenhuma.
Uma história pateta.